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Sem antídoto conhecido.

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14
Jul15

A desonestidade intelectual de João Miguel Tavares

Sérgio Lavos

João Miguel Tavares decidiu dedicar-me umas linhas numa crónica saída no Público. O assunto é a exposição pública da doença de Laura Ferreira, mulher de Passos Coelho.

O autor, já antes criticado pela sua desonestidade intelectual, começa o seu trabalho de trituração e deturpação do texto logo na acusação que me faz de tratar a mulher de Passos por Laura Passos Coelho, e não Laura Ferreira. Desconheço que nome aparece no bilhete de identidade, mas ao fazer uma pesquisa no Google tanto aparece Laura Ferreira como Laura Passos Coelho. É a segunda possibilidade que aparece na notícia do DN citada no meu texto e portanto é esse o nome que eu decidi usar (até porque a notícia tem a colaboração da própria, e portanto parti do princípio que ela quis ser tratada assim). Mas tal não impede que João Miguel Tavares parta para considerações sobre as minhas intenções, num parágrafo delirante no qual plasma duas das suas recorrentes estratégias: a presunção estapafúrdia, ao considerar que a intenção que eu tive ao escrever "Laura Passos Coelho" era dar expressão a uma "marialva misoginia"; e a generalização abusiva, ao confundir a minha opinião com a de uma "sempre tão liberal esquerda". O parágrafo em questão é um catálogo de vícios recorrentes em João Miguel Tavares: às duas distorções argumentativas soma-se o processo de intenções, quando parte do princípio de que quem reflectiu sobre a exposição pública da doença não teve em consideração que Laura Passos Coelho tenha escolhido enfrentar a sua doença de modo público ou que até tenha decidido ajudar outras pessoas com o seu exemplo.

No caso do meu texto, mais do que fazer um processo de intenções, oculta e trunca, porque eu escrevo, preto no branco: 

"Respeito a doença e o sofrimento de Laura Passos Coelho (assim como a sua coragem em mostrar publicamente a alopécia, mas isso é outra história)".

A omissão desta parte do texto é deliberada porque contraria a sua argumentação puramente especulativa. É uma clássica falácia. E na própria citação que faz há outra truncagem, ainda mais claramente desonesta. João Miguel Tavares escreve:

“Quando olhei para as fotografias confesso que senti algum constrangimento ao ver alguém assumir de modo tão despudorado uma doença tão dramática (…) [Mas] o que eu critico é outra coisa: Passos aparentemente não fez qualquer esforço para evitar que as fotos saíssem no Correio da Manhã.”

O que está no texto original é:

"Quando olhei para as fotografias confesso que senti algum constrangimento ao ver alguém assumir de modo tão despudorado uma doença tão dramática. Eu não faria o mesmo. De qualquer modo, aceito que a decisão dela não seja censurável. E claro que não faz qualquer sentido criticar o facto de ela ter decidido acompanhar o marido numa visita oficial. O que eu critico é outra coisa: Passos aparentemente não fez qualquer esforço para evitar que as fotos saíssem no Correio da Manhã."

Percebe-se facilmente por que razão João Miguel Tavares truncou o texto. O excerto cortado contraria a sua argumentação. Ele diz no seu texto que a "esquerda liberal" não aceita que Laura Passos Coelho seja mais do que uma "extensão do primeiro-ministro" (esta é uma das muitas passagens nas quais ele julga perceber o que a esquerda, essa admirável abstracção, pensa). E quando escrevo:

"De qualquer modo, aceito que a decisão dela não seja censurável. E claro que não faz qualquer sentido criticarmos o facto de ela ter decidido acompanhar o marido numa visita oficial."

Distingo claramente a decisão de Laura Passos Coelho da escolha do marido. Assim esboroa-se a ténue linha de raciocínio de João Miguel Tavares – não que isso alguma vez o tenha detido, diga-se.

Há outra omissão, tão ou mais grave do que a anterior. João Miguel Tavares não refere em qualquer passagem da sua crónica o pretexto inicial para a minha crítica: a escolha que Passos fez de trazer a doença da mulher para o espaço público, ao torna-la tema de um capítulo da sua biografia. E também ignora a cadeia argumentativa que eu sigo. Recorde-se que a biografia foi escrita pela assessora de Passos, publicada a cinco meses das eleições. É um claro objecto propagandístico, surgido em plena pré-campanha eleitoral. Para esse objecto escolheu Passos trazer a doença da mulher, com a intenção evidente de atribuir um rosto mais humano ao político. Logo no início do meu texto aparece um excerto da biografia que demonstra a intenção do primeiro-ministro - de resto publicado também na notícia do DN que foi a minha fonte:

"Eu tenho medo de deixar as minhas filhas, a minha família, o meu marido. Tenho muito medo de morrer. O Pedro consegue tranquilizar-me e dar-me força".

Sem querer repisar argumentos do meu artigo inicial, repito: houve uma escolha deliberada de Passos: tornar a doença da mulher um facto público e portanto político (a biografia é um acto político). Esta escolha contraria um pedido inicial de respeito pela privacidade. Daí para a frente, a imprensa cor-de-rosa passou a tratar a doença como coisa pública, e é nessa condição, e exclusivamente por causa disso, que surge a minha crítica. Não ponho em causa a escolha, muito menos a de Laura Passos Coelho. E se a escolha dela se enquadra numa campanha para ajudar quem está na mesma situação do que ela, isso é seguramente louvável. O que critico é a contradição entre o pedido inicial de respeito pela privacidade e a exposição posterior da doença, na biografia, deliberadamente feita com intuitos políticos. A biografia é de Passos, a escolha foi dele. É à luz desta escolha que devemos analisar tudo o que aconteceu depois. O tom indigno do excerto que eu pus acima fala por Passos.

 

P.S. Uma palavra também para o facto de João Miguel Tavares se referir a mim como "militante do Livre", coisa que não sou - sou apenas apoiante informal e promotor do Tempo de Avançar. Parece-me evidente que o texto de Tavares (como de resto o fazem outros sobre o mesmo tema, todos escritos por direitistas) não passa de um pretexto para atacar a esquerda no seu todo. Julgo que o cronista ainda não tinha criticado o Livre nas suas intervenções, e decidiu começar por este belo pedaço de pura desonestidade intelectual, este naco de prosa tresandando a demagogia e maus fígados. As escolhas ficam com quem as faz. Sinceramente não sei se quem decide enveredar por este tipo de combate político merece o tempo que perdi ao escrever este texto. Mas há coisas tão desonestas que não podem ficar sem resposta. Vale a João Miguel Tavares (e à direita) que eu não tomo a parte pelo todo (ao contrário do que ele faz quando tenta colar a minha opinião – pessoal – não só ao Livre como a essa abstracção que apenas existe na cabeça dele, “a esquerda”) e sei que há muita gente de direita respeitável, pessoas que não merecem ser confundidas com tal ilustre figura. Cada um decide o tipo de batalha que quer travar. Há algum tempo que na minha batalha não entra gente da estirpe de João Miguel Tavares, alguém que recorre, de modo tão esforçado, à desonestidade intelectual enquanto método.

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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