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04
Mar

A cultura de direita

por Sérgio Lavos

Aqui há umas semanas, o conselheiro de Cavaco Silva, António Araújo, publicou no seu blogue um texto - de resto, bastante partilhado nas redes sociais - sobre a cultura de direita em Portugal. Aqui fica uma espécie de complemento a esse texto, publicado no Ipsilon de sexta-feira passada, por António Guerreiro: 

 

"A CULTURA DE DIREITA
Há algumas semanas, o jurista e historiador António Araújo publicou no seu blog, chamado Malomil, um ensaio sobre “A cultura de direita em Portugal”. O “corpus” da “cultura de direita” aí seleccionado e analisado situa-se exclusivamente no pós-25 de Abril e faz parte, inteiramente, da cultura popular urbana, jornalística e, de um modo geral, frívola. Mesmo um Agostinho da Silva – referido de passagem – surge enquanto fenómeno mediático. Devemos concluir que o autor do ensaio não encontrou exemplos da “cultura de direita” na nossa cultura erudita. E não é fácil encontrá-los. Mas talvez haja alguns vestígios: veja-se, por exemplo, uma recente edição da Mensagem, de Fernando Pessoa, comentada por Paulo Borges, e sigamos-lhe o rasto e a constelação de que faz parte. Mas o autor deste interessante ensaio não define à partida o que é uma “cultura de direita”, fazendo-a coincidir de maneira um pouco automática com a direita política. Uma tal definição talvez tornasse mais difícil a inclusão da revista Kapa (fundada em 1990 e que teve como director Miguel Esteves Cardoso) nessa cultura de direita; e talvez permitisse encontrar elementos da cultura de direita em criações artísticas e intelectuais vindas de sectores da esquerda (dou apenas um exemplo: um poeta como Manuel Alegre, que é de esquerda, tem uma concepção da poesia e da figura do poeta nitidamente de direita). O que é uma cultura de direita? Furio Jesi, germanista italiano e um dos maiores mitólogos do século XX, autor de um livro intitulado Cultura di destra (1979) definiu a cultura de direita como aquela que tem como modelo uma “máquina mitológica”, um dispositivo que fabrica mitologemas, narrativas sobre o passado, fazendo dele “uma amálgama que se pode modelar”. É – diz Jesi recorrendo a Oswald Spengler – a linguagem das ideias sem palavras (Spengler: “A única coisa que permite a solidez do futuro é aquela herança dos nossos pais que temos no sangue: ideias sem palavras”). Jesi analisou sobretudo uma tradição alemã e italiana. Se quisermos procurar uma tradição portuguesa da cultura de direita não encontramos um Bachofen, nem um Ludwig Klages, nem um Julius Evola, nem um D’Annunzio. Nem sequer a concepção do poeta como vate de Manuel Alegre é comparável ao Dichter de Stefan George. E quanto mais nos aproximamos do nosso tempo, mais difícil é definir uma cultura de direita porque ela tende a ser, como a de esquerda, um realismo, e a sua doutrina fundamental consiste numa adesão ao individualismo liberal. A cultura de direita converteu-se ao pragmatismo económico e, no essencial, fala uma linguagem que, aliás, a esquerda não consegue ultrapassar, nem se esforça por isso. Em suma, abandonou completamente os livros e as bibliotecas e instalou-se nas televisões, nos jornais, nos ministérios e nos escritórios. Por isso, quando lemos uma entrevista como a que Anabela Mota Ribeiro fez a um jovem casal de “católicos de direita”, como são apresentados Eduardo Nogueira Pinto e Helena Nogueira Pinto (na Revista 2, do “Público”, no passado domingo), tendemos a procurar nela as manifestações intelectuais de uma “cultura de direita”. E o que encontramos? Exactamente a persistência das “ideias sem palavras”: o louvor da ordem e da moral familiar; o romantismo político. O que, sem mais, se reduz a uma pobre manifestação da cultura de direita. Mas devemos compreender que a tradição portuguesa não lhes deu grandes figuras de invocação. Em Portugal, mais do que uma cultura de direita, o que temos são famílias de direita. Isto é: muito sangue e pouca cultura."

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2 comentários

De Joe Strummer a 04.03.2014 às 18:06


A analise de Antonio Guerreiro é demasiado exigente. Se despachar Crivellis e Mirós pela porta do cavalo e a bem da Nação não é cultura o que é cultura afinal?

De Joe Strummer a 04.03.2014 às 21:57


Parte da questão parte da formulação, ie, é verdadeiramente importante a cultura para a direita?
Pelo menos a nossa tem traços caracteristicos mais fundados numa vivência de acordo com valores aristocraticos rurais, militares e em grande parte religiosos, Antes o ser, a vivência e a
eternidade dos valores depois a palavra escrita,a expressão. Primeiro o santo e o heroi.

Na realidade em questões relacionadas com a tradição e a raça, bem como na mitologia,
se retiramos os simbolos identificadores politicos teremos por vezes surpresas. O patriotismo do PCP, o seu ascetismo religioso e purificador a sua mitologica a sua tendencia não muito heterogenea em termos raciais e o sua tendencia para o isolamento heroico apelo tem muitos pontos de contacto com a tradição e com os icones projectados na direita.Nem este nem o caso de Alegre são por acaso, nem o PC partilha só os mesmos objectivos tactico-politicos da direita. São fundados nos mesmos valores, embora diferentes na sua utilização.

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