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01
Nov

Os deuses dos outros

por boomerangomics
Na Islândia ninguém sabe ao certo quando os vulcões vão entrar em erupção. A relação de amor-ódio entre as placas tectónicas continentais alimenta os sonhos dos ultra-isolacionistas de ambos os lados. A anulação da dívida hipotecária superior a 110% da reavaliação é um desastre à espera de acontecer, a bolha imobiliária resultante do controlo de capitais imposto aquando do colapso da banca islandesa é um tubarão preso num aquário sem manutenção adequada, ursos polares náufragos dão à costa da Islândia, ainda com vestígios de icebergues agarrados às unhas. E depois?

As industrias da criatividade explodiram na sequência da implosão do sector financeiro. A música islandesa, o cinema e a literatura namoram com os mercados. O peixe e outros recursos marinhos são o petróleo islandês. Os sectores das pescas e da energia geotérmica foram nacionalizados após décadas concessionadas a 20 barões do mar, quando a Islândia ainda era o exemplo do sucesso neoliberal.

A ideia é que a riqueza da nação seja a riqueza dos cidadãos, como os fundos do petróleo norueguês, ou timorense. Ah e tal... «É uma rocha gelada ao pé do Círculo Polar Árctico e até a melhor banda islandesa, os FM Belfast, ganha a vida a escrever canções sobre férias à beira-mar em praias das caraíbas, não me lixes.» É um argumento muito frequente e bem fundamentado. É aqui que o islandismo pisca o olho ao realismo mágico. 

O Presidente da Islândia sentiu-se na obrigação moral de convocar um referendo antes hipotecar o futuro do país por várias gerações. A Irlanda e a Espanha também tinham bolhas imobiliárias e sectores financeiros expostos a riscos múltiplos, no entanto, os seus governantes não hesitaram em carregar sobre o exército de contribuíntes, uma responsabilidade para a qual em nada tinham contribuído. Foram pressionados, como a Grécia, sabe-se agora, foi pressionada pela França para anular o referendo em 2011 sob chantagem de revelação da "lista Lagarde" então Ministra das Finanças francesa.
A Islândia tem um longo cadastro de resiliência, primeiro ao Reino da Noruega e mais tarde ao da Dinamarca. A Islândia não constrói estradas ou sequer ciclo-vias em zonas habitadas por elfos e acredita nos seus próprios deuses, mesmo quando finge acreditar nos dos outros. Ser islandista é não deixar que seja o FMI a calcular o multiplicador recessivo do nosso país e depois dizer: Oopss desculpem, enganei-me. Sem indemnizar o empobrecimento da nação, as falências, os postos de trabalho perdidos e vantagem dada à concorrência estrangeira? Fazer sangue para saldar dívidas não era coisa das máfias? Ou foi noutro planeta? 

O Presidente do Município de Reykjavik, Jón Gnarr, humorista, ganhou as eleições depois de fundar o Best Party. O Best Party é o melhor partido, claro, porque defende as cenas cool e opõe-se a tudo o que seja uncool. E para além disso, e da troika, prometeu não cumprir nenhuma das suas promessas eleitorais. A Islândia é o laboratório político com que jamais ousámos sonhar. E foi então que resolvi redigir o Manifesto do Partido Islandista: Artigo 1º (e último) Em nenhumas circunstâncias o dinheiro do contribuinte será usado para resgatar bancos ou outros interesses privados.
Há quem diga que o islandismo é para preguiçosos e caloteiros. Não concordo. Pôr as pessoas antes dos bancos é para humanistas. Ser islandista não é vida fácil. O islandismo está cheio de obstáculos e dos piores: os desconhecidos.  A crescer mais de 3% e com o desemprego a rondar os 5%, pedir a cidadania é uma boa opção. Mais arriscado é confiar nestes austeristas com nomes alemães, que "ai aguentam, aguentam!" que encerremos as nossas contas no BPI. E no entanto, a Islândia é na Terra, não é na Lua.

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6 comentários

De André a 02.11.2012 às 10:17

A Islândia, tem 200 mil pessoas (mesma população que a Ilha da Madeira ou o bairro de Benfica em Lisboa), não há pobres, vivem em comunidade quase tribal e as origens da sua crise são totalmente diferentes. O que se pretende comparar?

De Rocío a 02.11.2012 às 10:31

Acho que não se está a comparar nada, André. Mas o espírito é esse.
Nós (islandistas) somos pessoas sérias que pagam as suas dívidas mas não estamos é dispostos a pagar as dívidas dos outros :-)

De pop ovo a 16.11.2012 às 19:35

Que bela lição, necessitamos de verdade e responsabilidade, porque já quase ninguém sabe o que isso significa, não interessa.
Quero ser militante dum Best Party qualquer, quero voltar a acreditar, quero fazer parte de algo novo, na terra, não necessita de ser na lua.

De Pedro Figueiredo a 16.11.2012 às 23:59

A fusão do Partido Islandista com o Partido do Realismo Mágico será mais revolucionária que a fusão a frio. Uma mais exequível do que outra.

De Anónimo a 17.11.2012 às 12:23

É isso, Pedro.
A tal fusão espantará o mundo e será proposta ao Nobel (em Física e em Política) ... Mas será rejeitado (esses prémios estão prostituídos de mais)

De Romeu Monteiro a 03.02.2015 às 11:00

Então os islandeses deixaram os seus bancos falir?
E plano de resgate do FMI, não pediram e cumpriram?

É tudo muito bonito falar em interesses privados, quando os islandeses passaram anos a mamar impostos da banca islandesa, que deixaram crescer até ser mais que 10 vezes superior à economia do país, sob suposta supervisão e garantia do Banco Central da Islândia. São islandeses para mamar impostos dos seus bancos, mas não o são para cumprirem as obrigações que eles próprios definiram que tinham em relação aos bancos que operavam no seu país? Não me gozem.

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