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Estou em greve.

 

Porque prefiro o meu nome desprezado pelos carrascos deste tempo, antes quero que os pulhas me cuspam do que me doa a consciência.

Trabalho para o Estado, num hospital público. Sempre achei que tenho o dever de não deixar um doente esperar, muito embora nunca os veja, muito embora apenas me passem à frente num ecrã de computador. Sequências de números que sofrem.

Aprendi assim, fui formado a comportar-me assim. Nunca fiz greve enlevado por este sentido do dever, acima do dinheiro, acima das convicções ideológicas, acima dos direitos que outros adquiriram para mim. Trabalhar para o estado representa ser funcionário dos doentes, não do ministro A ou do secretário de estado B.

Nos últimos dias o meu director tem pregado sobre a inutilidade da greve, que outrora fez, mas presencialmente, num gesto abnegado e heróico que não vê em mais ninguém. Debitou horas seguidas de discurso anti-greve, sem no entanto pisar a linha da ameaça, mas quase. Ouvi-o calado.

Falei com colegas que gostariam muito, mas o dinheiro faz falta. A mim também.

 

Reflecti pesadamente, não por causa da enorme precariedade (inexplicável ...)  do meu posto de trabalho,  e resolvi aderir à greve geral dos trabalhadores.

Estou certo de que me vai custar bem mais do que o salário de um dia de trabalho, mas não posso ceder mais ao escabroso discurso de Passos Coelho tratando os portugueses como povo inferior, não posso deixar mais passar em claro o insidioso ataque a uma sociedade que estava a melhorar, que progredia, e que viu os seus esforços esfumarem-se em nome de ideologias purificadoras, salvíficas, venenosas.

Tentei prevenir ao máximo os danos causados pela minha falta, mas neste dia torno a escolher um lado do muro, torno a dar a cara pelo que desejo para todos. Sei bem que o hospital não vai parar, ainda bem, e os danos da minha greve serão quase imperceptíveis. Mas sinto-me a defender os meus, a proteger o presente, a prevenir o futuro.

Poetas loucos os que pensam num mundo para todos, e assim, eis-nos aqui chegados ao mundo dos loucos que nada sabem de poesia, que não conhecem a temperatura das mãos que nos abraçam, que nunca sentiram a textura aveludada do afecto, o ar fresco da amizade, a segurança do respeito,  mas apenas o sabor metálico do medo.

Nem de nós podiam ter dito outra coisa que não mal.

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1 comentário

De DS a 27.06.2013 às 15:40

Bonito!

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