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06
Jun

Take a look at me now

por David Crisóstomo

Tinha perdido o passe. A senhora que acabara de entrar no autocarro da TST em Alcântara às 18h35 estava em pânico: não tinha passe. Não sabia dele, não estava nos bolsos, não estava na mala, não estava no chão. E começou a chorar. A chorar e a soluçar. Não devia ter mais que 55 anos. Soluçava, sentada no terceiro lugar a contar do motorista, do lado esquerdo. Revirava a já velha mala em busca do documento. Não o encontrava. Tirava tudo e nada. Em lágrimas, levantou-se e, com o seu pequeno porta-moedas, pagou o bilhete ao motorista. 4 euros e 10 cêntimos. De olhos vermelhos e cabelo desarranjado, explicava a situação ao motorista. Ou tentava. Meio autocarro, que ia cheio, estava a tentar entender o que se passava. E foi então que ela desabafou ao motorista num tom audível e desesperado: "Eu não sei o que fazer. O mês acabou de começar e eu já tinha comprado o passe. São 80 euros. Eu não tenho esse dinheiro. Não sei o que fazer". Voltou a chorar. Uma senhora de idade sentada ao lado da porta tentava consolá-la. "Não fique assim, vai ver que o encontra". Uma outra senhora sentada ao meu lado acrescentou: "Não se preocupe, eu também já perdi o passe uma vez e depois fui Cacilhas [terminal dos autocarros] e tinham-no encontrado". Tentando recompor-se, a senhora foi se sentar no seu lugar. Voltou a procurar na mala. Mas nada. Levou as mãos à cara num acto de aparente desesperança angustiante. Explicou a um casal do lado que vivia num pequeno apartamento longe de Almada, longe de Lisboa, longe do seu emprego. Tinha estado desempregada mas conseguira há uns meses um trabalho numa empresa de limpezas. Recebia mal e a más horas, mas recebia. Tinha um filho, cuja a idade não revelou. Vivia com ele. Aparentemente, só com ele. E estava desesperada. Um rapaz ofereceu-lhe um lenço para limpar a cara. Agradeceu, envergonhada. Agradecia as palavras amáveis que ia ouvindo de outros passageiros e pedia desculpa. Pedia desculpa mas não sabia o que fazer: não tinha dinheiro para comprar outro passe. Não tinha dinheiro. E tinha medo.

  

Isto passou-se há umas semanas. Nunca mais vi aquela senhora, no autocarro ou fora dele. E ontem lembrei-me dela. Lembrei-me após ouvir as declarações do senhor primeiro-ministro. "Hoje Portugal e os portugueses são vistos como gente trabalhadora, cumpridora e honrada". Hoje. Antes não eram, portanto. Mas agora, depois dum processo económico lunático e desacreditado, que decorre há já dois intermináveis anos, já o são. Mas as consequências dessa credibilidade ganha, o desemprego inqualificável, a miséria indiscreta, um longo prazo inexistente, uma economia que insiste em não cumprir com os desígnios do mui credível Gaspar, tudo isso e tudo o que é mau e maligno, 'não é do processo de ajustamento'. Nem dos senhores que foram para além do processo de ajustamento. Estão inocentes. Foi a realidade, algo que não controlam, algo que desprezam, não lhes diz respeito. Não é com eles. Enquanto lá fora, na Amadora que Passos quis outrora administrar, se gritava e protestava, um saxofone, uma melodia de Phill Collins, soava na sala onde o senhor primeiro-ministro iria falar. Against All Ods. Quem diria que isto seria Portugal numa Primavera de 2013.

 

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6 comentários

De J. Costa a 06.06.2013 às 11:51

Trabalho num serviço académico de uma Faculdade de Medicina (UC), Estranhei o facto de 5 alunos terem faltado a uma 2.ª frequência quando verifiquei que 4 tinham tido 12 e um 15 na 1.ª frequência. A cadeira era de farmacologia, uma cadeira do 3.º ano. A verdade é que foram alunos que cancelaram a matricula por não ter dinheiro para as propinas e vida caríssima que comporta estudar noutra cidade. TEMOS ALUNOS DE MEDICINA A ABANDONAR O CURSO QUANDO JÁ VÃO A MEIO POR NÃO TER FORMA DE PAGAR OS SEUS ESTUDOS. Estamos no bom caminho

De Marusi a 06.06.2013 às 12:49

Ficar com o contacto da Sra. e pagar-lhe o passe é que "está quieto". Que pague o Estado, que caridadezinha não é da esquerda. Da esquerda é a indignação. Demagogos, é o que são. Palavras, leva-as o vento.

De Helder Estêvão a 06.06.2013 às 13:05

Mas este não percebeu nada ou está a tentar fazer de nós parvos. O desespero de alguém que fica sem meios de poder trabalhar para sobreviver, não tem nada a ver com "caridadezinha" ou imbecil ( sim é uma ofensa)

De Marusi a 06.06.2013 às 14:36

Não percebi? Imbecil? Então a Sra. tinha arranjado um trabalho de limpezas (até há 2 anos seria consultora nalguma empresa de sucesso), precisava do passe para trabalhar, e o imbecil sou eu? Nunca mais ouviu falar da Sra.? Ficou com o número dela? Preocupou-se em ajudar? E o imbecil sou eu? Ficar sem meios de subsistência não é de agora. Que eu saiba a pobreza nunca acabou em Portugal. Percebeu que a imbecilidade é ver alguém precisar de ajuda e esperar que seja o estado a ajudar? Letra vejo eu muita. E imbecilidade. (Sim foi um insulto)

De David Crisóstomo a 06.06.2013 às 16:26

Vou-lhe dar uma novidade: o Estado somos todos nós, 'tá a ver? Não sei o que é que acha que é o Estado, nem o que acha sobre as funções do mesmo, mas uma das principais é redistribuição, entende?
E para si a solução para estes problemas é sempre essa que sugere? 'que alguém se chegue à frente'? E quando não houver ninguém? ca ça foda? Teve azar a senhora, olha, chapéu, é a vida?

A pobreza sempre existiu em Portugal, tem razão, nunca acabou. Mas é preciso ser dotado duma especial ignorância para achar que esta não voltou a atingir patamares antigos nos últimos 2 anos.

De filomena a 06.06.2013 às 17:01

As pessoas honestas não querem um troquinho, nem aceitam dinheiro de desconhecidos, querem só, como bem se percebe do texto, condições mínimas para poder trabalhar.

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