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13
Mai

CDS-PP, o partido de tudo

por Nuno Pires

 

O XIX Governo Constitucional, que integra dois partidos, está quase a celebrar o seu 2.º aniversário. E, ao fim deste tempo, é cada vez mais visível não apenas a nulidade que o segundo partido do Governo representa, mas, acima de tudo, o CDS-PP revela de forma clara a contradição factual entre aquilo que o partido chama a si, quando na oposição, face àquilo que faz, quando no Governo.

 

Exemplos concretos? Não pretendendo ser exaustivo, aqui ficam alguns.

 

O CDS-PP não é o partido da lavoura.
Tendo ficado com a tutela da Agricultura (num mega-ministério de difícil gestão, diga-se), o CDS-PP e Assunção Cristas tiveram como "momentos altos" a introdução de uma taxa de saúde e segurança alimentar e a eliminação das gravatas no ministério. Enquanto isto, a produção agrícola continuou (e continua) a deparar-se com os efeitos do aumento do custos de produção, os pequenos agricultores lutam pela sobrevivência e os jovens continuam sem ver oportunidades na lavoura.
Enquanto esteve na oposição, o CDS-PP não se cansou de lançar acusações (na sua larga maioria, baseadas no mais puro desconhecimento) sobre o PRODER. Chegados ao Governo, o marasmo instalou-se no principal mecanismo de apoio à agricultura em Portugal e os bons níveis de execução resultam, na sua larga maioria, de projetos aprovados pelo executivo anterior.
Por estas e por outras, o CDS-PP não tem a mais pequena legitimidade para se auto-proclamar como o "partido da lavoura".

 

O CDS-PP não é o partido da família.
Um partido que vota, e aplaude na sua votação, um documento que determina um brutal corte no Fundo de Garantia dos Alimentos Devidos a Menores, não é um partido que defende a família, especialmente as famílias mais carenciadas. Um partido que resolve inventar um "visto-família" para as deliberações em Conselho de Ministros, que como todos sabemos têm sido tão "family friend" (e.g., a proposta de aumento generalizado do horário de trabalho em meia hora), não pode, apenas por isso, anunciar-se como defensor da família. Um partido que subscreveu o violento aumento das taxas moderadoras, não é, definitivamente, um partido que apoie as famílias.
Face ao exposto, a que acrescem outras e diversas dificuldades levantadas pela sua co-governação à generalidade das famílias portuguesas, o CDS-PP é, em bom rigor, um partido que levanta obstáculos à família, ao invés de um partido que as defende.

 

O CDS-PP não é o partido dos pensionistas.
A enorme cruzada do CDS-PP, enquanto oposição, em defesa dos pensionistas granjeou-lhe a tutela do Ministério da Solidariedade e da Segurança Social. No entanto, a prática do agora ministro Pedro Mota Soares tem muito poucas parecenças com aquilo que o seu partido defendia no passado.

O brutal corte orçamental do Complemento Solidário para Idosos (corte esse com o qual Portas se sentiu perfeitamente confortável, não sentindo a necessidade de vir falar em quaisquer "fronteiras" intransponíveis, exceto excecionalmente), a que se somam as mais recentes taxas e cortes sobre todos os pensionistas (com o lamentável espetáculo associado à sua aprovação em conselho de ministros) e uma deterioração generalizada dos mecanismos e serviços de apoio à terceira idade, vêm destruir liminarmente qualquer aspiração do CDS-PP a tornar-se o grande defensor dos idosos em Portugal.

 

O CDS-PP não é o partido do contribuinte.
O CDS-PP chegou ao Governo e, tendo sob sua tutela a Secretaria de Estado dos Assuntos Fiscais, não se incomodou minimamente em lançar novas e mais agressivas taxas de retenção na fonte de IRS, em reformular os escalões de IRS (reduzindo a progressividade deste imposto), em diminuir as deduções fiscais, entre outras bonitas alterações que nos trouxeram à maior carga fiscal de que há memória em Portugal.
A verdade é que, se há coisa que este CDS-PP não é, e julgo que aqui não há mesmo quaisquer dúvidas, é defensor do contribuinte.

 

***

 

Chegados aqui, ao fim de quase dois anos de co-governação do CDS-PP, Paulo Portas e o seu partido revelam a sua verdadeira natureza, para espanto dos poucos que ainda tinham qualquer tipo de crença ou fé na alegada e tão propalada bondade das suas políticas.

Recorrendo a um slogan de campanha deste partido, este é o momento para se assumirem, de uma vez por todas. Para dizerem ao que vêm, de forma clara e sem mensagens dúbias.

Basear a sua intervenção política, quase por inteiro, no malabarismo argumentativo, na falta de memória alheia, na ausência de espírito crítico de alguns eleitores, não é apenas um insulto à inteligência coletiva: é, também e acima de tudo, um insulto à nobre arte que deve ser (e que tem que ser) a política.

 

(Imagem: agência Lusa)

 

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3 comentários

De mar a 14.05.2013 às 11:32

Ora nem mais. populismo quanto basta, diz uma coisa e faz outra! assim até eu.
O poder é tão apetecível!!!
Estes governantes só vão parar quando o povo (QUE TRABALHA) estiver na miséria.

De Eu a 15.05.2013 às 10:49

Diz o Paulo Portas neste vídeo, e passo a citar:

"Eu sou geneticamente contra o poder, (...) no dia em que alguém [do CDS] lá chegar eu passo-me para a oposição ou deixo de ser amigo dele!"

http://www.youtube.com/watch?v=KVxkAlUo1kw

Podemos portanto concluir q neste momento o gajo não tem amigos, não é?

Naquela época Paulo Portas era co-director (juntamente com o Miguel Esteves Cardoso) do jornal O Independente, "órgão de informação especializado em jornalismo político de investigação", segundo o estatuto editorial do semanário. E tal era a investigação que muitas foram as manchetes a malhar nos políticos da altura, sobretudo o então primeiro-ministro... Cavaco Silva.
Exemplos são qd o jornal publicou, em 93, que Portugal andava a vender e reparar material bélico ao MPLA, em plena guerra civil de Angola, e à Indonésia, dois anos apenas após o massacre no cemitério de Dili. Isto foi o princípio do fim do então ministro da Defesa, Fernando Nogueira.
Ou mais recentemente, que o Sócrates, então primeiro-ministro, estava envolvido no caso Freeport. Neste caso, foi o fim do jornal pelas mãos do Sócrates, que arranjou maneira de acabar com o ele, em 2006.

Até se dizia na altura que os nossos políticos não conseguiam dormir nas noites de quinta-feira, com medo do que saísse n'O Independente na sexta!

Mas como é engraçada a vida, e as voltas qu'ela dá...
A besta transmutou-se e anda agora nas suas seis quintas - sete se fosse primeiro-ministro, o sonho da vida dele!
O Robin dos Bosques passou-se para o outro lado, o dos que tiram aos pobres pra dar aos ricos, e não quer largar o poleiro nem por nada, "porque eu defendo primeiro que tudo os interesses dos portugueses, e o fim da coligação mergulhará Portugal numa crise política da qual, nesta altura, não sobreviveria."

Tretas! A crise política já aí anda há muito tempo, sobretudo com políticos como ele!
No domingo dia 5 reservou o horário nobre das televisões para dizer que fez um risco no chão e que avisou o Passos Coelho 'daqui não passas, senão zango-me contigo', uma semana depois já concordou com mais cortes nas pensões! Aposto que o Passos lhe deve ter dito (e bem...) 'ou tás connosco e ou sais', e ele escolheu o poleiro, claro.

Costuma-se dizer das pessoas, e sobretudo dos políticos, que têm duas caras. Este tem troikas delas!!
Tantas velhas que ele beijou em tantas feiras de norte a sul, a quem tanto prometeu aumento de reformas... E ainda mais grave é que tá no Governo mesmo tendo perdido as eleições, e de que maneira: ficou em terceiro lugar com menos de 12% dos votos, 27% por cento a menos que o PSD e 16% que o PS. Claramente, os portugueses não o quiseram lá, e é por isso que eu sou contra partidos políticos, maiorias absolutas e coligações, esta em especial!

Mas este Paulo Portas, mesmo com as mil e uma caras qu'ele tem, não tem ponta de vergonha naquela tromba!

De CarlosMedeiros a 15.05.2013 às 15:29

100% de acordo. Mas e o resto do povo? Vê televisão? Ouve rádio? Lê jornais? Se calhar sim, mas percebem o que vêm, ouvem ou lêem ? Possivelmente não. Só assim se explica que se permita que os responsáveis pelo percurso do país nos últimos 28 anos (de 1985 até ao presente), sejam agora os protagonistas da recuperação, a que se junta a enorme "lata" de responsabilizarem o povo pelos problemas que o país enfrenta.
Perguntaram ao povo se queria aderir à CEE? Perguntaram ao povo se queria aderir á moeda única? Claro que não. Os iluminados que acharam que podiam decidir pelo povo, responsabilizam e penalizam agora esse mesmo povo pelas suas decisões.
Isto é democracia?
Não me parece.

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