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03
Mai

Desdém em Belém

por David Crisóstomo

Vasco Graça Moura é um tipo engraçado. Com um ódio épico a Sócrates e ao Partido Socialista, este 'velho do Restelo-é-já-ali-em-cima', patrono das letrinhas afónicas, sempre foi um fiel defensor de sua nulidade, o Presidente da República, D. Aníbal da Silva. No dia do trabalhador, Vasco fez um apelo à populaça para que ignore o facto de o alegado 'garante do regular funcionamento das instituições democráticas' ter defendido em pleno dia da Liberdade que as regras democráticas que regem o nosso sistema politico podem ser ignoradas, que temos que interiorizar que o programa não-sufragado deste governo tem que ser & tem que ser com força. Que não há alternativa. Eleições? Não mudam nada. E o Vasco diz que as reações de vergonha, de repulsa face a este discurso não passam de 'alarido', barulheira, chinfrim. Que "é típico da esquerda não aceitar as regras do jogo", menosprezando que foi o próprio Presidente quem afirmou que as mesmas poderiam ser desprezadas. E, por fim, que ficou muito surpreso com a reacção do PS, afirmando que esperaria do principal partido da oposição uma posição com mais 'respeito' pela figura presidencial, que tivesse aplaudido, comprado flores, pedido autógrafos e gritado 'Viva Cavaco, abaixo as eleições!'. Mas, no meio deste desvario mental, há um pormenor engraçado: Vasco Graça Moura descobriu o valor da estabilidade. Ora vejam:

 

"Tudo bem espremido, o que parece é que, ao contrário do Presidente, há no Partido Socialista quem preferisse juntar uma grave crise política à grave crise económica e social que atravessamos, só para provocar a realização de eleições legislativas."

 

Ou seja, quem quer derrubar governos só quer ir ao pote, criar uma crise política (sim, porque agora está tudo muito calmo) e lixar-nos a vida. É isso, não é? E em 2011?

 

"A estabilidade não pode configurar um mero chavão para os lorpas (...). Tem de servir de moldura a uma política útil, firme, rigorosa e exequível, com o objectivo de tirar Portugal da crise. De outro modo e dentro do buraco em que nos encontramos, a estabilidade pela estabilidade não serve para nada, a não ser para aumentar esse buraco e para ele se tornar ainda mais pantanoso."

 

A claridade do juízo é óbvia. Não é nenhuma novidade que o autor de 'A porcaria' é uma criatura facciosa, com um pensamento politico mesquinho, odioso e presunçoso, que sob a capa de 'intelectual' ataca vilmente quem dele discorda, tudo fazendo para justificar uma argumentação desonesta e insultuosa. Adicionar o adjectivo 'hipócrita' a este belo curriculum vitae é algo que também não surpreenderá ninguém, sendo este desnobre vulto um excelente exemplo do 'rigor moral' da direita execrável que ainda apoia a maior fraude governamental da história da democracia portuguesa.

 

Todavia, sobre a intervenção de Cavaco Silva, Vasco Graça Moura tirou uma mui certeira conclusão: "Com toda a clareza, o Presidente explica o que pensa e mostra como exerce os seus poderes." 

Ámen.

 

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2 comentários

De Nuno Rebelo a 03.05.2013 às 10:10

Muito bom exercício de antologia, David.

Mostra, às escancaras, a imensa contradição em que muitas figuras vivem e como moldam a opinião consoante não a sua profunda convicção mas antes pela circunstância . Olha, para fazer uso de expressões tão em voga diria que são pensamentos conjunturais e não estruturais.

Convém adendar que este Graça Moura pouco depois de chegado à sala da presidência do CCB, logo ali, juntinho ao lado do Palácio de Belém, sai-se, no alto da sua sobranceria e infinita autoconfiança com a ideia, consumada logo após, de eliminar qualquer traço de novo acordo ortográfico, afinal uma sua velha luta.

De Helena Lopes a 03.05.2013 às 12:20

Estamos demasiado cansados de gente que se prolonga na vida publica como se nao houvesse vivalma inteligente neste retangulo. Ha! E vai ter a sua oportunidade tao cedo quantos estes velhos do Restelo deixem de nos atormentar.

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