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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

19
Abr13

Uma carta, a pretexto dos parabéns ao PS

Rui Cerdeira Branco

 

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Querido leitor,

 

Tenho 37 anos, sou filho de migrantes, nascido em Lisboa, criado entre o subúrbio sintrense e a raia de Espanha, lisboeta em permanência vai para 10 anos. A pretexto dos 40 anos do PS ocorreu-me discorrer sobre a minha memória da política que se confunde com o tempo de vida. E tu, caro leitor, onde estiveste nos últimos 40 anos?

 

As primeiras memórias que tenho da política construíram-se pela televisão, a campanha presidencial de 1980, a morte do Primeiro-Ministro, a eleição de Ramalho Eanes... E pela rua nos vários 25 de abril e festa associada. Recordo a história do 25 de abril contada pelo meu pai, beirão, ex-guardador de rebanhos, à data marinheiro de prevenção na capital, sem excessiva carga política ou entendimento de tramoias complicadas. Um genuíno e singelo amante da liberdade e da justiça.

Depois, veio a atenção aos debates na TV, Mário Soares, o fascínio pelo que era o entendimento e o desentendimento em política, a AD, o Bloco central, as várias pétalas da rosa socialista no PS, os senhores eternamente zangados do PCP, o táxi do CDS, a convulsão do PSD.

Recordo já melhor o turbilhão na segunda metade da década de 80: a era moderna da política lusa com a entrada na CEE, com o primeiro presidente civil, a primeira grande vitória política com que vibrei verdadeiramente no que uns 11 anos permitem. O fenómeno PRD, a ascensão de Cavaco e os “mestrados em política e jornalismo” com o nascimento da TSF. O desenvolvimento do sentido de justiça, em crescendo. O querer sempre defender os mais fracos, de preferência com a palavra. O soco dado e recebido, num extremo. O querer compreender, o gostar de matemática e chegar à economia começando a criticar a lógica monolítica da política económica cavaquista. Acompanhar a JS de Seguro, um tipo de uma família decente lá do concelho, à distância...

E mais instantâneos e reflexões, como o medo de perder a capacidade crítica com uma entrada precoce num “clube” político. A faculdade, uma maior participação política, a felicidade de fazer amigos politicamente muito diferentes e bons democratas. Caminhando sempre próximo do PS, em choque com a degradante praxis política nas juventudes em batalha pelas associações de estudantes. E a perceção do acerto na aposta de um afastamento consciente da política partidária organizada. A consciência de que vibraria demasiado com o “clubismo”; o Sporting a ensinar-me que precisava de mais defesas para não perder o norte. O respeito pela família com a necessidade de acabar o curso em 4 anos. As manifestações contra Cavaco, na rua. As visitas aos antiquários de São Bento sob patrocínio policial.

As várias camadas da política mediática, a política pelos jornais, do Independente ao Expresso mas sempre a minha amada rádio. A sensação de algumas oportunidades perdidas na gestão do país, a perceção de Guterres como a última grande oportunidade para fazer grandes coisas e depressa com a generosa boleia da CEE.  A dignidade, o diálogo, uma maior sinceridade e transparência na forma de fazer política. A importância da forma sobre o conteúdo. A admiração / desconfiança perante as agências de comunicação. A política espetáculo e o espetáculo da política. A surpresa civilizacional dos autóctones sobre sí próprios com a Expo 98. A vertigem para o vazio. A morte de Cunhal, a sucessão de Soares. Jorge Sampaio. Algures por aqui, começar a compor uma nova família. O cumprir serviço publico como trabalhador do Estado.


Foi também tempo de perceber a imensa dificuldade que há entre o querer e o fazer. A crescente dissonância entre o político, o povo e o interior do país. A sucessão de desiludidos da política da minha idade que foram mais para dentro do que eu e que se afastaram, à esquerda e à direita, co mraras exceções. Alguma desilusão com o PS, com o aquém de Guterres. Admiração por Ferro Rodrigues e pela capacidade de reinvenção do PS. O melhor e o pior do PS com o caso Casa Pia. A revolta perante tiques possessivos face ao país, às instituições e à democracia. A hipocrisia e o cinismo de Barroso, o que deu à sola. A degradação política dos meios e da prática de Santana Lopes. A esperança e o entusiamos com Sócrates.

O arranque reformador do PS com maioria absoluta. O político profissional. A constatação dos tiques dos pequenos poderes na administração do Estado com patrocínio partidário, sem grande diferença face ao governo do momento. Um mal social banalizado. A capacidade de reformar com nexo e concertação na Segurança Social e no Trabalho. A admiração por Vieira da Silva. O cutucar da vaca sagrada na educação, sem grande inteligência emocional. O ensino obrigatório até ao 12º ano, a boa ideia do Magalhães, a falta de procedimentos credíveis/estabilizados de sindicância de investimentos. A realpolitik à moda lusa. A capacidade de renovar, de cativar novos quadros para o exercício do poder. O plano tecnológico, as renováveis, o simplex, a lei em português claro, a e-governo com alguns excessos de velocidade, a coragem de assumir que era preciso mudar nos direitos cívicos, nas liberdades individuais.

O excesso de imagem, os sinais de obstinação, a incapacidade de compreender as ameaças latentes. A necessidade imperiosa de termos um governo melhor do que o país. A infantilização do eleitor. Não perceber onde ficou a defesa do interesse nacional perante opções simbólicas eleitoralistas. O encurralamento autoinduzido numa realidade virtual, a sucessão de mentiras, a excessiva pressão política sobre serviços públicos independentes, o fracasso político e orçamental em 2010. Mas também a traição vinda da Europa.

 

O MEP e finalmente a militância. Fazer duas campanhas na estrada, em dedicação exclusiva. Construir uma alternativa de raiz. A perceção de que não há ameaça bastante para motivar a renovação e a aproximação aos interesses de muitos portugueses dentro dos partidos acomodados. A descoberta de que há muitas pessoas competentes e politicamente mobilizáveis para a causa pública ativa dentro de estratos pouco comuns (jovens adultos com família, vida estabelecida e sem experiência política ativa anterior). O corte com o MEP às mãos da fábula da escorpião.

 

A pesada herança emocional de Sócrates. A fraca crítica interna com reflexo externo claro do passado recente. O ciclo de vida política de Seguro, o falso-lento. A pouca densidade política de Seguro em virtude da reduzida afirmação política prévia em matérias de políticas de Estado mas também a convicção da honestidade e do genuíno interesse na defesa da causa pública. As dúvidas quanto à capacidade de evitar um permanente ambiente de guerrilha e acerto de contas interno. O perigo de um racalcamento mas trabalhado. E depois a redução da perceção da ameaça e a concentração no essencial. O apelo à participação. O aceitar do desafio. A compreensão da imensidão do desafio político do momento. A catástrofe governativa. A necessidade imperiosa de uma alternativa. A imensa desconfiança na política. Os fumos do final de regime. A militância no PS, sem reservas, por fim.

 

E, claro, a internet, pretexto para novas amizades, para a exposição egocêntrica e narcisista, para o desabafo, para o debate, para a política, para a aprendizagem, até para o amor.

 

Caro leitor, mal te conheço, serás pessimista-otimista, preguiçoso-trabalhador, ativista-comodista ou mesmo teimoso errante, sei que enquanto me leste fomos um único português. Tem de ser por aí...

Mando-te os meus parabéns, ao PS.

Ao dispor,

R.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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