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17
Abr

Farewell

por David Crisóstomo

A Helena Matos é uma querida. Andava eu a querer saber quais tinham sido os deputados do PS que se tinham abstido no 'voto de pesar' pela morte da ex-primeira-ministra britânica e deparo-me com o video da votação no blogue da bovinidade. Já vos disse que ela é uma querida? Deus lhe pague. Vejam vejam:

 

O voto de pesar pelo falecimento de Margaret Thatcher foi proposto pelo CDS e pelo PSD, que ficaram muito abalados com isto. O BE, o PCP e PEV votaram contra. E a maior parte do PS decidiu votar a favor, mas com uma declaração de voto onde diz que se dissocia dos considerandos do voto que tinha acabado de aprovar (enfim). Houve todavia 13 deputados do PS que se abstiveram: Duarte Cordeiro, Isabel Moreira, Pedro Delgado Alves, Pedro Nuno Santos, Ana Paula Vitorino, António Serrano, João Galamba, Rui Santos, Idália Serrão, Mário Ruivo, Paulo Pisco e Carlos Enes. E a Helena Matos está chateadíssima com eles por não se terem vestido de preto e encharcado lenços brancos com lágrimas amargas. Pois nunca se pode ser contra ou indiferente a votos de pesar - tem-se sempre que aprovar de forma sentida e emocionada. Se alguém apresentar um voto de pesar pela morte do Kim Jong-un? Aprove-se! E se alguém apresentar pela de Bashar Al-Assad? Aprove-se! Omar al-Bashir? Aprove-se! Robert Mugabe? Aprove-se! Alexander Lukashenko? Aprove-se! You get a vote, you get a vote, everybody gets a vote!

 

Nunca entendi esta mania dos deputados da Assembleia da República de transformar o órgão legislativo numa agência funerária momentânea aquando da morte de alguém assim, digamos, 'importante'. Não está nas competências do parlamento português pronunciar-se sobre a morte ou o nascimento de alguém. Os parlamentares não devem ser especialmente sensíveis a mortes, sejam elas de quem forem, sob pena de estarem a discriminar cidadãos - os 'importantes', para os quais o parlamento manifesta um voto de pesar na altura do seu falecimento, e os outros. Mas, pronto, admitindo que é, de qualquer modo, uma tradição parlamentar fazê-lo, ao menos que tal iniciativa esteja exclusivamente reservada a casos de altas individualidades públicas (ex-presidentes da república, ex-primeiros-ministros, figuras nacionais da história cotemporânea, ...). E sabe quantos votos de pesar é que já foram apresentados desde o inicio desta legislatura? 69. 

 

Não conheci Margaret Thatcher e suspeito que a esmagadora maioria dos deputados da AR também não. Não a tendo conhecido, a sua morte é algo que me causa indiferença. Não gostava da senhora por discordâncias políticas e pelo seu papel em certas circunstâncias da história recente - mas é só isso. Não sendo o meu atrito com a senhora algo de pessoal, não vou festejar a sua morte. Mas também não me peçam para encarnar uma mágoa que não é minha. O luto é algo de pessoal. E a Assembleia da República não deve legislar ou manifestar-se sobre matérias do foro pessoal dos cidadãos. A Helena Matos indignou-se com a abstenção dos 13 deputados do PS. Eu aplaudo, pois é exatamente daquela forma que eu me comportaria: com indiferença. A morte da senhora não me diz respeito.

 

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3 comentários

De Tomás a 17.04.2013 às 21:53

Ponto positivo desta votação? 3 dos 13 socialistas (acho que aqui podemos pôr sem aspas) que votaram contra são os últimos três presidentes da jota. Depois de seguro, ainda há alguma esperança...

De António a 17.04.2013 às 22:12

Muito bem, exatamente o que penso sobre o assunto.

De Manuel Torres a 19.04.2013 às 01:54

É lamentável, que há 2 dias tenha feito um comentário sobre um post que me agradou sobremaneira, por ser, de facto, contra as ideias feitas pela manipulação dos media pro-americanos e agora tenha de fazer outro contrário no mesmo blog - mas é isto de facto a discussão de ideias diferentes. Só que quando o senhor fala de Bashar Al-Assad, não fala da agressão imperialista anglo-americana ao seu país, como o fizeram ao Iraque e à Líbia e ao Afeganistão... e para quê? Para instalar a chamada "democracia" ocidental, ou para outros fins não declarados, mas que nós sabemos quais são - basta ver o que se passa neste momento nos países que referi atrás, ou seja, a miséria, a destruição e o massacre de populações indefesas, quer dizer, o regresso, não da democracia, mas do barbarismo mais obscurantista, em nome de interesses puramente materialistas dos países invasores, "modelos democráticos" ocidentais! Aconselhava-o a meditar sobre: Syrie : cessons d'être les complices des Anglo-américains (Interview avec Bassam Tahhan), in: http://www.internationalnews.fr/article-syrie-cessons-d-etre-les-complices-des-anglo-americains-interview-avec-bassam-tahhan-116549311.html

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