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11
Abr

Impulsos erráticos

por Nuno Pires

 

O atual Governo prossegue o seu percurso titubeante, com um novo e rocambolesco episódio a cada dia que passa.

 

Ontem, na sequência de um despacho revanchista de Vítor Gaspar (que, muito sinteticamente, pretende congelar o Estado e asfixiar todos aqueles que legitimamente usufruem da coisa pública), foi noticiado, pela manhã, que todas as ações de formação e estágios profissionais estavam suspensos e, a par, uma das medidas mais "emblemáticas" do ainda ministro Miguel Relvas, o Impulso Jovem.

 

Ora, qualquer pessoa que tivesse lido o famigerado despacho teria rapidamente chegado à conclusão de que a realização de novas ações de formação ou novos estágios profissionais por parte do IEFP, fosse no âmbito do Impulso Jovem ou não, se encontra impedida até à sua aprovação pelo recém-empossado líder supremo do Estado, Vítor Gaspar.

 

No entanto, algum voluntarioso colaborador do IEFP, ou alguém num gabinete ministerial numa enorme ânsia por fazer prova de vida, ou ambos (nunca se sabe), lá resolveu, a meio da tarde, vir desautorizar formalmente o Ministro das Finanças e anunciar ao país que não senhor: continua tudo a funcionar como dantes, a única coisa que podia ter acontecido era "alguma perturbação pontual decorrente da divulgação do despacho" e agora (pasme-se!) até se está a tentar reforçar a realização destas iniciativas. Magnífico!

 

O espetáculo estava bonito, mas mais para o final do dia a dura realidade resolveu dar um ar da sua graça e o IEFP voltou a emitir novo comunicado, para nos dar mais uma versão desta trama: efetivamente e como resulta da leitura do despacho, os apoios ao emprego e o Impulso Jovem encontram-se suspensos. Sobre a motivação que esteve por trás desta nova comunicação a contradizer a anterior, podemos especular livremente: terá sido por "motu proprio" do IEFP? Terá o Ministério das Finanças exercido algum tipo de "magistratura de influência" junto do IEFP para que este viesse esclarecer o óbvio? Julgo que nunca saberemos.

 

Aquilo que sabemos é que esta colossal trapalhada aconteceu no espaço de poucas horas. Sabemos que o IEFP e o Impulso Jovem foram, apenas, a face mais visível de um Estado sequestrado, pelo que a pergunta impõe-se: como terá sido o dia de ontem (e como vão ser os próximos) nos Centros de Saúde, nas escolas públicas, nos balcões da Segurança Social?

 

Este estado de coisas é absolutamente inadmissível para qualquer cidadão que aprecie viver num regime democrático, mas, em bom rigor, a patética sequência de eventos do dia de ontem já só poderá ser uma surpresa para quem não for de cá e não conhecer já as bizarras singularidades do atual Governo.

 

Para quem já o conhece, foi apenas mais um dia, normalíssimo, em que o XIX Governo Constitucional andou a brincar com a coisa pública, com a vida de milhões de cidadãos e com o fruto de décadas de conquistas sociais, que este Governo se entretém a destruir.

 

(Imagem)

 

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