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Quanto a isto, apesar de já ter escrito ontem, vale a pena reiterar que me sinto na zona equatorial entre dois lados, diria dois polos: entre o polo do grupo que aglomera os risíveis contorcionistas que procuram desculpabilizar - da forma mais disparatada possível - as infelizes declarações proferidas pelo Miguel Gonçalves e os fanáticos do utilitarismo, do racionalismo ao absurdo e do individualismo metodológico e o polo do outro grupo que congrega os que negam qualquer ponta de influência positiva do individualismo - alguns parecem mesmo querer ignorar a sua associação biológica -, os que convivem bem com um certo imobilismo e oportunismo do meio académico e com o corporativismo de algumas classes profissionais. Aqui, darei o desconto àqueles que, de um polo ou de outro, procuram capitalizar a discussão partidariamente ou que têm apenas “tiradas infelizes”, por exemplo, trazendo para a discussão a pessoa de Relvas. Isso não interessa para o caso e só ridiculariza automaticamente a crítica do próprio emissor.

Se é verdade que concordo com a crítica ao discurso exacerbado à volta do empreendedorismo, da responsabilização individual e do utilitarismo e, ainda, se me preocupa os que se aproveitam indignamente da "especulação" à volta da promoção do autoemprego, também me revolta o discurso extremado da socialização de todas as responsabilidades, a distorção oportunista do empreendedorismo, esquecendo que este assume várias formas para lá da criação do próprio emprego e confesso-me desiludido por subsistir uma certa visão socialmente conservadora, imobilista, e ausente de qualquer sensibilidade pragmática para procurar resolver problemas socioeconómicos e institucionais concretos (faz-me lembrar isto).

 

Permitam-me socorrer a um exemplo, a algo que escrevi num passado recente: «O Observatório do Empreendedorismo de Base Tecnológica (2005), demonstra que os estudantes do ensino superior têm poucas intenções empreendedoras (40,8%). Apenas 7% revela intenções de criar o próprio negócio e apenas 5,1% tem fortes intenções neste sentido. Sabemos ainda que a dinâmica empreendedora (relação entre o nível de empreendedorismo e o nível de crescimento económico) é reduzida, quando comparada com outros parceiros europeus e que o empreendedorismo, geralmente, cinge-se ao setor do consumo (B2C) e muito reduzidamente para outros negócios (B2B)». Alia-se a isto o atual momento económico-financeiro e social. Este défice na mentalidade e postura empreendedora, tem várias justificações/âmbitos, desde económicos, financeiros e políticos até culturais, desde o nível micro até ao macro. Negar qualquer um dos âmbitos e níveis é como “enterrar a cabeça na areia”. O que me admira é que perante o panorama, a solução de alguns seja nada fazer e a de outros seja de criticar por criticar. Nada fazer quanto: «à aversão nacional ao risco; à má ou ausência de métodos de ensino-aprendizagem adequados; à inadequação dos planos curriculares (que têm sofrido uma satisfatória evolução em algumas instituições que conheço); à excessiva burocratização do sistema jurídico-legal nacional; aos reduzidos níveis de crédito destinado ao pequeno e médio tecido empresarial e, neste sentido, a falta de oportunidades financeiras para a criação do próprio emprego (apesar da franca evolução a este nível nos últimos anos); à elevada iliteracia económico-financeira à escala nacional». Nada, mesmo quando as recomendações de entidades conceituadas vão no sentido exposto, mesmo quando os estudantes, formandos, agentes sociais e económicos pedem o contrário da solução da era industrial e esquecendo o enquadramento político-institucional europeu (e.g. vd. Declaração da Conferência Interministerial da EHEA em Bucareste). Simplesmente, nada.

Convém notar que a abordagem à temática das soft skills, do fomento das competências transversais e das competências transferíveis não surgiu do nada. Não surgiu da cabeça do Miguel, nem dos “paladinos do empreendedorismo”. Surgiu precisamente na década de 80 ou 90, da quase integral desconexão entre a sociedade e as Universidades e da falta de competências tão basilares como saber trabalhar com um computador. Se não fosse uma certa evolução nos métodos pedagógicos, ainda hoje teríamos estudantes, independentemente do sistema educacional, a fazerem trabalhos académicos sem ter contacto com um computador ou com a web. Em oposição, a desenhos de planos curriculares que promovam uma maior liberdade de escolha e uma versatilização pessoal, uma maior combinação de saberes, uma maior interligação com a sociedade ao invés da visão redutora de enfoque apenas nas competências core, o que nos é proposto é a manutenção de um sistema educacional da era industrial, com “produção” em massa indiferenciada para um modelo económico, cultural e político completamente diferente. Curiosamente, esta postura passadista não foge muito da visão governamental de querer competir por baixos salários e não por via do incentivo à inovação e desenvolvimento.

Não pretendo ser mal interpretado pelo que reforço o que já disse várias vezes. A defesa de um modelo mais equilibrado entre as diversas formas de aquisição de competências, ainda que pareça assentar, em parte, numa componente individual, tem uma finalidade coletiva, uma finalidade profundamente social (e.g. melhorar a capacidade de gestão de recursos humanos, melhorar a capacidade de comunicação, promover o trabalho em equipa,...). A criação do sistema bietápico, concomitantemente, favorece a transversalidade dos graduados e a aprendizagem ao longo da vida. A promoção da integração de saberes - como a integração entre áreas de letras e de gestão, engenharia e artes, etc. - é saudável e temos imensos casos de sucesso a nível mundial disso mesmo, ainda que neste aspeto haja muito a fazer em Portugal. Também há um papel na implementação de TIC no sistema educacional. “Etc., etc., etc.”. Podia escrever o dia inteiro sobre isto. Todas estas matérias estão associadas mas, infelizmente, nestas discussões falta geralmente sensatez, equilíbrio, estando infestadas de pressupostos errados e de um enorme distanciamento institucional. Só quem vive alheado da evolução institucional no panorama nacional e internacional, pode negar a necessidade de interligar a sociedade – na sua componente sociocultural e económica – e as instituições educacionais. Percebo e concordo que não seja recomendável ajustar, na plenitude, os outcomes das instituições educacionais e os incomes do mercado laboral. Percebo que as instituições educacionais estejam inseridas em realidades mais estáveis e o mercado laboral viva da instabilidade com intervalos de estabilidade (ou o oposto). Todavia, a cooperação entre estas instituições é bem-vinda e não pode só servir para a prestação de serviços e, consequente, benefício de um só lado. Seria demasiado redutor e, reitero, contraproducente.

Geralmente, os que criticam o modelo que se expõe, são também os que criticam o novo modelo de gestão de algumas instituições de ensino superior nacionais, mesmo quando tal se tem verificado um sucesso, mesmo quando as vontades são emanadas da maioria da população académica. Geralmente, são também aqueles que defendem um tratamento imobilista e contraproducente de tratar as instituições universitárias e politécnicas do sistema público, como se se tratassem de um qualquer outro organismo da administração pública. Aqueles que rejeitam um sistema mais transparente, com menos assimetrias de informação, com efetiva autonomia institucional e liberdade para que cada instituição se adapte à sua própria cultura institucional (e.g. tendo a liberdade para adaptar diferentes tipologias de órgãos, assim como diferentes composições e competências, desde que salvaguardado o princípio da democraticidade, na adoção das alterações, no seio da comunidade académica). São, de igual forma, aqueles que defendem um modelo educacional onde a componente "ensino" seja relegada para segundo plano na avaliação do corpo docente e, ainda, são aqueles que defendem uma visão estanque do mercado laboral, onde a formação deve conduzir obrigatoriamente à profissão de formação (e não, sob esta lógica, não estou a advogar que devemos aceitar qualquer posto de trabalho precário à primeira ou segunda oportunidade). Em suma, defendem o imobilismo, em favor de uns, em desfavor da maioria, geralmente, os socialmente mais frágeis.

Se é preciso bater o punho contra o social-darwinismo induzido pelas odes à precariedade, também é preciso batê-lo contra o imobilismo do statu quo, o conservadorismo institucionalizado pacificador, contra o “está tudo bem”, mesmo com a “casa a arder”...

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