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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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03
Abr13

O vendedor de pipocas

mariana pessoa

Não me vai ser fácil escrever sobre o vendedor de pipocas Miguel Gonçalves (MG). Cada vez que ouço alguém falar dele, vem-me sistematicamente à cabeça uma expressão de Max Weber : “especialistas sem espírito”. MG é a vacuidade e a liquidificação de tudo o que pode ser mais corpóreo, mais consistente, mais coriáceo. Tudo o que não seja superficial, tudo o que não seja rápido, não tem valor. Só há um valor: o valor de mercado. A mercantilização do eu.

 

Hoje atingiu um novo mínimo histórico: convidado por um Ministro de Estado de um Governo eleito, que detém nas suas mãos a minha vida, a nossa vida, a vida do Miguel - ele responde do alto da sua inocuidade: “eu não percebo nada de política”. E só faltou verbalizar: “nem quero saber”. (Descontemos o facto de o Ministro em causa ser Miguel Relvas. É um Ministro de Estado, ponto).

E esta, para mim, foi a última gota. Porque é de uma irresponsabilidade enorme alguém que tanto tem visto abertas as portas de instituições de ensino superior, para falar aos seus rebanhos sobre como ‘bater punho’ é um estilo de vida tão super-hiper-mega-uau, tenha o desplante de afirmar isto.

E, assim sendo, aqui vai o porquê de considerar Miguel Gonçalves não apenas uma vacuidade idiota, mas também o representante de uma ideologia que hei-de combater com todas as minhas forças enquanto andar pelo Ensino Superior.

1) O discurso centrado no individual, à semelhança com o que acontece com o discurso do empreendedorismo como ideologia, é uma falácia. Como se tudo dependesse estritamente dos recursos individuais. A ideia de que qualquer um pode vender pipocas e ganhar 100 euros para propinas não é apenas estapafúrdia, é perigosa. Porquê? Porque nos dá a ilusão de que tudo está ao nosso alcance. Que todos nascemos iguais, com os mesmos contextos e condicionantes. Não temos, não nascemos. Esta ideologia do ‘impossible is nothing’ cria condições para que, em situação de falhanço como o desemprego (haverá variável mais intrinsecamente macroestrutural que esta?) as pessoas procedam à internalização individualizada da responsabilidade - os falhanços serão acompanhados de sentimentos de inadequação, de individualização da culpa, face ao discurso social de que tudo é possível e acessível, dependente apenas de vontade individual. Não é por acaso que há uma prevalência de sintomatologia depressiva associada à vivência de desemprego. E convenhamos que esta visão é muito conveniente quando queremos desresponsabilizar políticas económicas, culturais e políticas, verdade? Enquanto nos culpamos a nós não pensamos porque estamos no deserto…

2) A historieta das competências transversais/soft skills e a ideia de que a Universidade precisa de as adotar como suas. (Confesso-me desconfiada em relação a um conceito que surge como antagónico a qualquer coisa, no caso, a “hard skills” - mas adiante). Não há, ainda, um corpo teórico e um conceito científico minimamente estabilizado do que são as tais “competências transversais”. Hordas de gente usam o conceito, mas ninguém sabe muito bem do que estamos a falar quando referimos as soft skills. Mais: têm uma debilidade na sua própria génese – admitem-se como mensuráveis, mas têm problemas gritantes de fidelidade e validade. Mais ou menos como medir a altura numa balança, estão a ver? Então a ideia de que o Ensino Superior deve aproximar-se desta paródia já parece um pouco bizarra, não?

3) A ideia de que MG é quem põe o dedo na ferida das ligações do Ensino Superior com o mercado de trabalho. Bom, há mais de 20 anos, ainda MG não sonhava em vender pipocas para pagar propinas, que se ouvem Universidades e representantes do mercado de trabalho de acordo em relação à necessidade de haver cooperação. Absolutamente nada contra isso. Mas onde se lê cooperação, há sectores da vida pública, política e empresarial que leem “as universidades só vão produzir os diplomados de que o mercado de trabalho precisa, com o perfil de que elas necessitam”. Ora isso é profundamente errado: o ensino superior não existe para ser gerido estritamente como uma empresa (regra geral quem defende esta ideia são exactamente os mesmos que defendem que uma boa maneira de explicar as opções nas contas do Estado é fazer um paralelo com as contas de uma família), tão-somente porque um diploma não é apenas um produto. Tem o seu valor facial, mas é claramente ao seu valor intrínseco que faz a diferença (por exemplo, o pensamento crítico), a nível de complexidade, flexibilidade e autonomia. Mas sim, há um discurso largamente difundido pelas entidades empregadoras e que, inclusivamente, levou o ensino superior à centração na tal falácia das comummente chamadas “competências transversais”. Resta questionar, então, por que razão o tecido empresarial procura, em larga medida (e cada vez mais cedo!) mão-de-obra provinda destes contextos educativos. Entre consultoras e auditoras multinacionais esgota-se o top 20 de muitos cursos. Ano após ano, após ano. Realmente, o Ensino Superior prepara-os mesmo mal, é por isso que os continuam a ir buscar.

Na verdade, a expectabilidade de duplo décalage (da parte dos estudantes e dos empregadores) não revela, necessariamente, um problema ou um défice de formação académica. A questão é complexa demais para poder ser formulada de modo linear na base de uma alegada harmonia/congruência/correspondência entre ‘mundos’. Para além do facto – que convém não descurar – de que apenas se lida com percepções de formandos, empregadores e outros stakeholders – que frequentemente não dão conta da complexidade dos processos de desenvolvimento psicológico activados pela formação (já para não chamar à colação dimensões de natureza contextual, cultural e política). Em suma, está por demonstrar que a subordinação da formação universitária ‘ao emprego’ contribua para a obtenção de melhores resultados a nível individual, organizacional ou económico, entre outros.

4) Motivational speaker, o coach, ou o raio que o parta. Bom, cada um é livre de optar pelo endireita em vez de ir ao ortopedista, verdade? Mas o que é o coaching? Para além de uma profissão não reconhecida pelo IEFP, é uma abordagem exclusivamente focada no periférico da estrutura psicológica e, consequentemente, menos provável de manter a longo prazo, tornando-se, tendencialmente, numa aquisição efémera. Uma espécie de tarefismo inconsequente, um extreme makeover: pega-se na gorda, leva-se ao cabeleireiro, compram-se uns trapinhos. A senhora, agora disfarçada de menos gorda pelos trapinhos selecionados, diz maravilhas da vida. Três meses depois, volta tudo ao início, porque o cabelo cresceu e as roupas já não são novas. Agora tentando com um pouco menos de cinismo: como o próprio nome indica, o coaching é uma modalidade centrada no treino, o que equivale a um momento histórico que reporta, por exemplo, à Psicologia dos anos 50 do século XX – mais ou menos na mesma altura em que a homossexualidade era considerada uma doença. Já passaram uns tempinhos depois disso, não?

Não, Miguel Gonçalves, a solução não é fazer as próprias camisas por uma questão de princípio. A resolução do deserto em que estamos não é mais macaquices, é mais cérebro. É mais pensamento crítico, mais cidadania, mais capacidade interventiva. Não se resolvem problemas colectivos individualizando soluções. Não é fazendo escárnio da política, porque é justamente a política e a cidadania ativa, alerta, consciente e crítica que criam as condições para que o seu adorado “bater punho” de cada um possa valer a pena. Ou talvez seja justamente este caldo de cultura de pouca exigência, no centrado no fácil e no só juntar água a ferver que viabiliza a existência de Miguel Gonçalves. Ele agradece."

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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