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03
Abr

O vendedor de pipocas

por mariana pessoa

Não me vai ser fácil escrever sobre o vendedor de pipocas Miguel Gonçalves (MG). Cada vez que ouço alguém falar dele, vem-me sistematicamente à cabeça uma expressão de Max Weber : “especialistas sem espírito”. MG é a vacuidade e a liquidificação de tudo o que pode ser mais corpóreo, mais consistente, mais coriáceo. Tudo o que não seja superficial, tudo o que não seja rápido, não tem valor. Só há um valor: o valor de mercado. A mercantilização do eu.

 

Hoje atingiu um novo mínimo histórico: convidado por um Ministro de Estado de um Governo eleito, que detém nas suas mãos a minha vida, a nossa vida, a vida do Miguel - ele responde do alto da sua inocuidade: “eu não percebo nada de política”. E só faltou verbalizar: “nem quero saber”. (Descontemos o facto de o Ministro em causa ser Miguel Relvas. É um Ministro de Estado, ponto).

E esta, para mim, foi a última gota. Porque é de uma irresponsabilidade enorme alguém que tanto tem visto abertas as portas de instituições de ensino superior, para falar aos seus rebanhos sobre como ‘bater punho’ é um estilo de vida tão super-hiper-mega-uau, tenha o desplante de afirmar isto.

E, assim sendo, aqui vai o porquê de considerar Miguel Gonçalves não apenas uma vacuidade idiota, mas também o representante de uma ideologia que hei-de combater com todas as minhas forças enquanto andar pelo Ensino Superior.

1) O discurso centrado no individual, à semelhança com o que acontece com o discurso do empreendedorismo como ideologia, é uma falácia. Como se tudo dependesse estritamente dos recursos individuais. A ideia de que qualquer um pode vender pipocas e ganhar 100 euros para propinas não é apenas estapafúrdia, é perigosa. Porquê? Porque nos dá a ilusão de que tudo está ao nosso alcance. Que todos nascemos iguais, com os mesmos contextos e condicionantes. Não temos, não nascemos. Esta ideologia do ‘impossible is nothing’ cria condições para que, em situação de falhanço como o desemprego (haverá variável mais intrinsecamente macroestrutural que esta?) as pessoas procedam à internalização individualizada da responsabilidade - os falhanços serão acompanhados de sentimentos de inadequação, de individualização da culpa, face ao discurso social de que tudo é possível e acessível, dependente apenas de vontade individual. Não é por acaso que há uma prevalência de sintomatologia depressiva associada à vivência de desemprego. E convenhamos que esta visão é muito conveniente quando queremos desresponsabilizar políticas económicas, culturais e políticas, verdade? Enquanto nos culpamos a nós não pensamos porque estamos no deserto…

2) A historieta das competências transversais/soft skills e a ideia de que a Universidade precisa de as adotar como suas. (Confesso-me desconfiada em relação a um conceito que surge como antagónico a qualquer coisa, no caso, a “hard skills” - mas adiante). Não há, ainda, um corpo teórico e um conceito científico minimamente estabilizado do que são as tais “competências transversais”. Hordas de gente usam o conceito, mas ninguém sabe muito bem do que estamos a falar quando referimos as soft skills. Mais: têm uma debilidade na sua própria génese – admitem-se como mensuráveis, mas têm problemas gritantes de fidelidade e validade. Mais ou menos como medir a altura numa balança, estão a ver? Então a ideia de que o Ensino Superior deve aproximar-se desta paródia já parece um pouco bizarra, não?

3) A ideia de que MG é quem põe o dedo na ferida das ligações do Ensino Superior com o mercado de trabalho. Bom, há mais de 20 anos, ainda MG não sonhava em vender pipocas para pagar propinas, que se ouvem Universidades e representantes do mercado de trabalho de acordo em relação à necessidade de haver cooperação. Absolutamente nada contra isso. Mas onde se lê cooperação, há sectores da vida pública, política e empresarial que leem “as universidades só vão produzir os diplomados de que o mercado de trabalho precisa, com o perfil de que elas necessitam”. Ora isso é profundamente errado: o ensino superior não existe para ser gerido estritamente como uma empresa (regra geral quem defende esta ideia são exactamente os mesmos que defendem que uma boa maneira de explicar as opções nas contas do Estado é fazer um paralelo com as contas de uma família), tão-somente porque um diploma não é apenas um produto. Tem o seu valor facial, mas é claramente ao seu valor intrínseco que faz a diferença (por exemplo, o pensamento crítico), a nível de complexidade, flexibilidade e autonomia. Mas sim, há um discurso largamente difundido pelas entidades empregadoras e que, inclusivamente, levou o ensino superior à centração na tal falácia das comummente chamadas “competências transversais”. Resta questionar, então, por que razão o tecido empresarial procura, em larga medida (e cada vez mais cedo!) mão-de-obra provinda destes contextos educativos. Entre consultoras e auditoras multinacionais esgota-se o top 20 de muitos cursos. Ano após ano, após ano. Realmente, o Ensino Superior prepara-os mesmo mal, é por isso que os continuam a ir buscar.

Na verdade, a expectabilidade de duplo décalage (da parte dos estudantes e dos empregadores) não revela, necessariamente, um problema ou um défice de formação académica. A questão é complexa demais para poder ser formulada de modo linear na base de uma alegada harmonia/congruência/correspondência entre ‘mundos’. Para além do facto – que convém não descurar – de que apenas se lida com percepções de formandos, empregadores e outros stakeholders – que frequentemente não dão conta da complexidade dos processos de desenvolvimento psicológico activados pela formação (já para não chamar à colação dimensões de natureza contextual, cultural e política). Em suma, está por demonstrar que a subordinação da formação universitária ‘ao emprego’ contribua para a obtenção de melhores resultados a nível individual, organizacional ou económico, entre outros.

4) Motivational speaker, o coach, ou o raio que o parta. Bom, cada um é livre de optar pelo endireita em vez de ir ao ortopedista, verdade? Mas o que é o coaching? Para além de uma profissão não reconhecida pelo IEFP, é uma abordagem exclusivamente focada no periférico da estrutura psicológica e, consequentemente, menos provável de manter a longo prazo, tornando-se, tendencialmente, numa aquisição efémera. Uma espécie de tarefismo inconsequente, um extreme makeover: pega-se na gorda, leva-se ao cabeleireiro, compram-se uns trapinhos. A senhora, agora disfarçada de menos gorda pelos trapinhos selecionados, diz maravilhas da vida. Três meses depois, volta tudo ao início, porque o cabelo cresceu e as roupas já não são novas. Agora tentando com um pouco menos de cinismo: como o próprio nome indica, o coaching é uma modalidade centrada no treino, o que equivale a um momento histórico que reporta, por exemplo, à Psicologia dos anos 50 do século XX – mais ou menos na mesma altura em que a homossexualidade era considerada uma doença. Já passaram uns tempinhos depois disso, não?

Não, Miguel Gonçalves, a solução não é fazer as próprias camisas por uma questão de princípio. A resolução do deserto em que estamos não é mais macaquices, é mais cérebro. É mais pensamento crítico, mais cidadania, mais capacidade interventiva. Não se resolvem problemas colectivos individualizando soluções. Não é fazendo escárnio da política, porque é justamente a política e a cidadania ativa, alerta, consciente e crítica que criam as condições para que o seu adorado “bater punho” de cada um possa valer a pena. Ou talvez seja justamente este caldo de cultura de pouca exigência, no centrado no fácil e no só juntar água a ferver que viabiliza a existência de Miguel Gonçalves. Ele agradece."

 

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66 comentários

De Jorge Xavier a 03.04.2013 às 17:02

Obrigado Mariana. Por momentos receei que o pessoal todo achasse que este rapazola era uma boa ideia...

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 10:03

Obrigada, Jorge. Foi justamente essa a minha motivação para escrever este post.

De Carlos a 04.04.2013 às 10:40

A resposta a isto tudo esta nas fotos em anexo... lolol

http://www.facebook.com/photo.php?fbid=527555290617300&set=a.527555220617307.1073741826.214706898568809&type=1&theater

De Anónimo a 03.04.2013 às 17:31

\"Não se resolvem problemas colectivos individualizando soluções.\" Ate pode haver aqui alguma verdade, mas a inversa tambem se prova verdadeira: nao se resolvem problemas individuais colectivizando solucoes. As \"solucoes colectivas\" normalmente sao feitas apenas em beneficio de uns quantos individuos...

De Diogo Fula a 03.04.2013 às 18:56

"Não se resolvem problemas individuais colectivizando soluções."

Pergunto-me do que são feitos colectivos....
E mesmo quando fala "As \"solucoes colectivas\" normalmente sao feitas apenas em beneficio de uns quantos individuos..." Uns quantos individuos chamam-se uma....

De Diogo Fula a 03.04.2013 às 18:51

Adorei.

Não podia ter sido dito de forma mais assertiva e direta.
Proponho apenas uma versão de mais fácil leitura para o (MG).

Obrigado pelos minutos bem passados.

De Alexandra a 03.04.2013 às 21:28

Até que enfim que encontro quem também não idolatre o "debitador de balelas"... Concordo em absoluto.

De Serpente Emplumada a 03.04.2013 às 22:33

Parabéns, Mariana, conseguiu mostrar que é uma verdadeira portuguesa.

O Português - com inicial maiúscula por representar um estereótipo - está tão revoltado com a vida, tão confortável na sua resignação e gosta tanto de demonizar o sucesso em virtude do seu próprio fracasso, que não aceita as palavras inspiradoras de um jovem. Não aceita que alguém venha falar de iniciativa. "Iniciativa, que chatice", pensa o Português. E quando o pensa, qualquer desculpa o justifica. A conjuntura desfavorável, a exigência do mercado, o canudo que sai caro tirar, o banco que não empresta, o cão que está doente, o não ter dinheiro para ir ver o Benfica. É preciso ponderar as condicionantes da vida, mas é preciso também, SIM, ter força para contorná-las e avançar. Para empreender. É necessário CULTIVAR o empreendedorismo, e é aí que o Miguel dá o seu contributo. Ninguém pediu ao Miguel para ser o novo ministro da educação, ou para traçar as directrizes do sistema educativo português, pelo que aconselho que reveja o âmbito da intervenção.

Mariana, não há que ter medo. Não é preciso idolatrar ou insultar o Miguel - aliás, as posições extremadas costumam vir na medida da nossa falta de ponderação -, ele apenas dá o seu contributo, cabe a outros agentes e mecanismos fazerem também o seu trabalho. Aposto consigo: do conjunto das palestras do Miguel, muitos jovens indecisos houve que, certamente, agarraram a mensagem e perderam o medo de arriscar. E talvez uns quantos estejam, com a sua iniciativa, a sua empresa, os seus impostos, a criar valor para o nosso país e a combater o descalabro das finanças públicas.

De António Soares a 04.04.2013 às 04:02

O único empreendedorismo que o Miguel cultiva é o dele, o de vender aspiradores Kirby e banha da cobra. O Miguel não diz nada de novo, limita-se a pronunciar umas palavras em inglês, que aprendes em qualquer livro barato de marketing, e a meter uma ou outra piada nas suas palestras para cair em graça.
Há muitas pessoas assim, como o Miguel, que aparecem como uma lufada de ar fresco, motivam, dão alento. As pessoas sentem-se capazes de tudo. Sabes quando é que o Miguel já lá não está? Quando as endorfinas acalmam e as pessoas se apercebem que não depende apenas da sua vontade.
O que o Miguel faz é passar um atestado de estupidez a quem o ouve. O que ele diz é "reparem como é fácil". E se é fácil, porque é que mais de um milhão de Portugueses não o consegue? Porque somos burros, incultos, estúpidos? Ele não. Ele é um génio!
Eu tenho colegas com um currículo invejável que tiveram que emigrar. Eram maus profissionais? Não. Eram preguiçosos? Não. Incompetentes? Muito menos. Então, porque tiveram que emigrar? Simplesmente porque as empresas estão sufocadas e não conseguem pagar o seu ordenado. Até podia ser o Steve Jobs.
Atravessamos uma época de crise. É nestas épocas que aparecem os vendedores de banha, de esperança.

Já repararam que o Miguel repete sempre o mesmo tipo de diálogo? Quando lhe perguntam "Então e as medidas de austeridade?" ele diz "Eu disso não sei". Como é que alguém que não sabe analisar o país, as políticas, a conjectura, sabe como lidar com empresas e patrões?
Pois! No fundo a profissão do Miguel é... mandar trabalhar os outros!

De Ricardo Rodrigues a 04.04.2013 às 20:49

Parece a mim, que este individuo de nome Miguel Gonçalves, anda por aí de poleiro em poleiro a vender preservativos usados que os crentes compram como se fossem novos... Sem dúvida que possui "a arte de explorar a estupidez humana" (Ligeri, P.)

Não creio que o cerne dos nossos problemas de emprego esteja no eufemismo da minha “geração à rasca” mas sim no disfemismo da minha “geração tenho a vida f*dida á conta dos Boys”. Tal como melodiam o Klepht na sua música “Idade da estupidez” (mensagem forte que transmite), isto é tudo “jogos de interesses preservados pelo poder”.

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 20:51

E como o poder agradece esta ideologia do empreendedorismo individualizante.

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 20:48

onde é que leu no meu texto que eu considero que tudo são variáveis macro e que não há nada a fazer individualmente? Há, com certeza que há. Cada um lida com as circunstâncias como pode. Há o papel do esforço, do investimento, do compromisso. Claro que há. O que não podemos é ser líricos e achar que basta bater punho e desejar muito uma coisa para ela acontecer. Não ter consciência da influência das macro-estruturas é delirante, não tentar fazer pela vida é-o no mesmo sentido.

De Goncalo Gomes a 10.04.2013 às 18:54

curioso, e de forma semelhante, onde é q o MG não tem consciência da influência das macro-estruturas...?

De Goncalo Gomes a 10.04.2013 às 17:41

bom comentário!

De magalhaes a 03.04.2013 às 22:40

Obrigada Mariana

Conheço o MG há vários anos, sempre o considerei o verdadeiro vendedor da banha da cobra. Agora está no seu habitat natural, infelizmente para todos nós!

De Anónimo a 03.04.2013 às 23:19

deves conhecer deves !

De Anónimo a 03.04.2013 às 23:13

foda-se, mariana, adoro-te. <3 texto do caraças.

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 20:52

Ahahahahahahahahahahaha

De Onofre da Silva a 03.04.2013 às 23:17

Parabéns Mariana, acabou de mostrar a sua ideologia ... " OS OUTROS QUE TRABALHEM QUE EU QUERO É SUBSIDIOS" , mas para dizer a verdade, aposto que é mais uma infeliz da vida ... Que tem uma área de estudos, e só quer trabalhar numa coisa que teoricamente estudou... Mas para sua informação, estudar numa Universidade é base, mas não se agarre a isso ... Trabalhe nem que seja a virar hamburgers no McDonalds, e em verdade se diga, que por este post, vê-se que sabe escrever, mas que é muito limitada em pensamento !

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 21:00

Os outros que trabalhem, eu quero é subsídios???
Eu gosto de trabalhar, quero que os outros trabalhem também. Mas sabe, temos, salvo erro, a 3ª taxa de desemprego mais elevada da UE. E por isso, não admito que classifiquem a generalidade dos meus concidadãos como preguiçosos e indigentes que gostam de fazer nenhum, que devem ser castigados duplamente por não terem emprego. São desempregados e o subsídio que auferem (vá lá viver com aquilo a ver se gosta) advém do facto de terem trabalho e da sua carreira contributiva. Não é uma esmola que se dá por caridade. É algo que lhes é devido.

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 21:27

Só mais uma informação que saiu hoje logo pela manhãzinha: menos de metade dos desempregados (45%) usufruem de subsídio de desemprego. Portanto, quanto a subsídios, acho que estamos conversados.

De Paulo de Almeida a 03.04.2013 às 23:28

Mostrei isto ao meu pai, que queria arranjar um negócio. E não é que esta na ideia ser vendedor de pipocas. O problema é que os 100€ que este desfazado social diz conseguir metade vai para o estado. O Gaspar já foi ver o IRS deste \"idealogista\", na volta anda a fugir ao fisco.

De mariana pessoa a 03.04.2013 às 23:33

Paulo de Almeida,
Não me diga que também tem um pai soviético?

De Anónimo a 03.04.2013 às 23:49

Deves ser burro, informa-te !! A PUTA da tua vida deve ser uma merda !

De Miguel Maia a 03.04.2013 às 23:30

É impressionante o que gosto deste texto. Confesso-me comovido pela tão eficaz acutilancia com que aqui se argumenta. Só me resta dizer: é que é mesmo isto. E assim poupo-me ao trabalho de escrever um texto eu próprio; é que tipos como aquele dão a volta ao meu intestino de valores.

De mariana pessoa a 04.04.2013 às 10:05

Muito e muito obrigada, Miguel. Muito feliz essa expressão: "dão a volta ao meu intestinho de valores". Like!

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