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29
Mar

A prata

por David Crisóstomo

 

Sejamos culturais, senhor. Sejamos eruditos e brilhantes. Sejamos deslumbrantes na arte de interpretar a arte feita por artistas artísticos. Sejamos superiores, senhor. Pois só os da estirpe elevada são dotados da magnânima clarividência que permite o julgamento e a distinção entre os iluminados e os seres asquerosos. Monsieur Manuel Maria, Carrilho de seu nome genealógico, outrora o responsável-mor pela Cultura com cê hercúleo, decidiu em plena quinta-feira de endoenças, num nobre acto de educação das massas ignorantes, declamar a sua superior opinião sobre as vis criaturas que por esta nossa terra caminham. E oh senhor o que ele encontrou, concluiu, magicou. Relvas (Relvas, senhor!), aquele cuja a existência humana tem certamente como propósito o de nos relembrar da baixeza dos espíritos terrenos, é, nada mais nada menos, igual a Sócrates. Sócrates e Relvas são iguais, senhor. São bestas da mesma laia, provêem do mesmo pântano, expressam-se na mesma língua desprezível. E não só: Sócrates, além de ser Relvas e Relvas além de ser Sócrates, são ambos comparáveis a Berlusconi e a Sarkozy. Abençoado seja o Manuel Maria, senhor, pois ele nos revela a verdade ocultada. Pois Sócrates será certamente Relvas. Está mais que provado senhor, pois nunca o egrégio Manuel Maria mentiria, senhor, nunca, ele não calunia, ele não difama, ele não detrai. Manuel Maria, catedrático da alta cultura, curador do Louvre nas horas vagas, o exemplo carnal do pensador de Rodin, não atacaria, não senhor, pois este mestre d'Accademia está acima de todos nós, senhor, humanos estultos, pobres de sabedoria e conhecimento. Manuel Maria tem a verdade, senhor. Nunca poderíamos discordar de Manuel Maria, senhor. Se Manuel Maria nos diz que Sócrates e Relvas são siameses separados no pós-parto, então é a verdade absoluta. Manuel Maria não precisa de apresentar factos, senhor. Não precisa de provas, argumentos lógicos, informações precisas, racionalidade. Manuel Maria está acima disso senhor, pois para ele os frescos de Giotto não têm segredos, pois a ele Virgina Woolf revelaria todas as suas profundas angústias, pois a ele Franz Kafka explicaria os horrores do mundo burocrático, pois a Liebestraum n.º 3 de Liszt é a melodia que ele cantarola no duche. Estou certo disso, senhor. Manuel Maria está acima de todos nós, não precisa de nos justificar os seus brilhantes pensamentos, pode acusar, perdão, desmascarar!, na praça pública qualquer ogre encapotado. Se Manuel Maria diz que Sócrates é Relvas, então Relvas será Sócrates. Não questionamos, curvamo-nos. Ele trabalhou em palácios sabeis senhor? E filosofou, oh se filosofou, senhor. E tem a santa bondade de nos abençoar com os seus santos conhecimentos filosóficos toda a santa quinta-feira. Especula-se que já terá obtido a pedra filosofal e que anda por ai a transformar políticos inferiores em políticos d'oiro. Mas Manuel Maria será vitima de nojentos ataques que dirão que ele é um invejoso, um pulha, um canalha deslumbrado. Dirão de tudo, senhor. Dirão aliás que ele é como as "criaturas mitómanas, destituídas de superego e, portanto, de sentido de culpa ou de responsabilidade. Revelam uma contumaz incapacidade de lidar com a frustração, que é, como Freud bem ensinou, onde começam todas as patologias verdadeiramente graves. Com eles, tudo se dissolve num narcisismo amoral, quase delinquente, que vive entre a alucinação de todos os possíveis e a rejeição de quaisquer limites. Eles estão pois muito em linha com o paradigma do ilimitado que tem anestesiado e minado o mundo nas últimas décadas." Tudo falso, senhor. Querem-lhe mal. Não, senhor, Manuel Maria não é assim.

Anh? Não entendi senhor. Porquê, perguntais vós? Oh senhor, porque Manuel Maria é muitíssimo culto. Como assim 'isso não é justificação'? Mas, senhor, não compreende? Manuel Maria é corajoso, é integro, é puro. É a personificação da veracidade e o senhor sabe-o. Não entende? Os outros são ciumentos e repugnantes, senhor. São nojentos, senhor. E o senhor cale-se que já me está a chatear. Nota-se que não sois culto como D. Manuel Maria. Calai-vos senhor.

 

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