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A grande vitória da direita lusa ocorreu quando, perante os cidadãos do país europeu mais desigual da OCDE, conseguiu evangelizar a classe média e a classe baixa com a ladainha de que "vivemos acima das possibilidades".

Venceu quando começou a extrapolar demagogicamente casos particulares para ficcionar um determinado contexto sociocultural, como são exemplos os recursos abusivos e hostis aos ditos, pela direita nacional, “malandros do rendimento mínimo”. Quando convenceu alguns de que a responsabilização é "dicotómica de" ou "suprema a" um patamar mínimo de proteção social e que a punição é prioritária à reabilitação. Quando convenceu outros de que a caridade substitui eficientemente a segurança social. Saiu gloriosa quando enraizou, sem qualquer pudor, a tese hipótese de que a classe baixa tem um padrão de consumo mais propenso à importação do que a classe alta; que comer bife é hábito de rico. Triunfa quando vinca, no seu timbre clerical, que é nobre ter-se respeitinho pela ordem social, ser-se obediente ao Estado e, sobretudo, ser-se indefetivelmente leal ao sistema tributário para continuar a alimentar os sucessivos erros de planeamento estratégico e financeiro dos executivos. Levou de vencida, quando instituiu como natural a desigualdade e a falta de igualdade de oportunidades e de mobilidade social mas, também, quando fez esquecer que não há liberdade sem liberdade económica.

É neste novo “terreno” que as esquerdas recetivas à economia de mercado – não só na vertente partidária, como em movimentos culturais, sindicatos, correntes de opinião, etc. - têm de “jogar”, transfigurando-o, se quiserem vencer politicamente. Não querendo elaborar apologias deterministas, as esquerdas devem rejeitar o argumentário supra exposto de cariz hobbesiano e que procura bipolarizar a sociedade (i.e. gerações e classes). Devem afirmar-se como alternativa, aprender com os erros do passado e não entrar no discurso tático de apontar nuances de posicionamento que pouco impacto têm, no panorama macroeconómico e social, a longo prazo. Talvez resida aqui a atual grande descrença da esquerda sociológica na esquerda política – incluindo, o parco distanciamento entre a esquerda e a direita nas sondagens - e é, neste vetor, que alguns responsáveis da esquerda política deveriam fazer ajustes de discurso e de opções políticas. Primeiro, é preciso afirmar e personificar uma estratégia social e cultural diferente, para depois vencer politicamente. 

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