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Crescer agarradinha aos livros da Simone de Beauvoir tem destas coisas e internalizei a ideia de uma vida completa na minha casinha forrada a livros de capa nobre, sozinha, rodeada de serigrafias, álbuns de vinil e cd's. Uma vida em que era possível acordar de manhã e deixar correr a música pelos corredores decorados a tons minimalistas. Internalizei a ideia de que o desenvolvimento intelectual estava associado a uma charmosa solidão.

Por acaso, ou talvez não, tinha uma tia assim. Uma tia que se emancipou numa altura em que as mulheres que fumavam eram vistas como mulheres da vida. Em que a figura do cabo do mar interrogava as mulheres na praia sobre a sua indumentária pouco apropriada, porque reduzida. Não conseguiu lidar com as regras autoritárias do meu avô, e foi viver para Cascais. Viveu a era dourada do Frágil. Tirou o curso de Literatura Inglesa e Alemã, mas nunca deu aulas (não tinha pachorra). Viveu com o homem por quem se apaixonou aos 19 anos, ele mais velho do que ela quase 15, contra tudo e contra todos. Contra canhões, contra brasões, contra o diz-que-disse. Que eu saiba (que eu saiba...) foi o único amor da vida dela.

Esse homem morreu cedo, pelo que também foi viúva precoce. Fez questão de usar vermelho no funeral e continuou. Dilacerada, mas continuou. Fez da frase as árvores morrem de pé um lema. Ressurgiu várias vezes na minha vida, em alturas marcantes - por acaso ou talvez não.

A última vez que ressurgiu na minha vida foi para morrer 6 meses depois. Uma morte estúpida, como todas as mortes de quem sai daqui demasiado cedo. Por negação, deixou que a doença que dizima a família (a minha e a dela, ou o que resta disso) tomasse conta. Porque quis morrer como sempre viveu: à sua maneira. De nariz empinado, solitária passeando a cadela à beira-mar, com os livros debaixo do braço. Um cigarro e um café na esplanada na Granja. Intencionalmente ou talvez não, as melhores amigas dela tinham a minha idade ou pouco mais.

Naquela altura, entre um abraço de um primo no funeral e os momentos a sós em que estive com ela quando o sofrimento já não existia, percebi que a solidão é tudo menos enobrecedora. É tudo menos charme. E que não há beleza nisto, seja ela em que formato for. Morrer sozinha (não o último acto em si, mas o processo) é abjecto. Espero eu saber como não deixar que isso aconteça comigo.


Há pessoas que nos morrem para nos darem vida: saiba eu aprender. 



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2 comentários

De Teofilo M. a 16.03.2013 às 13:40

Sózinhos, morremos com as recordações! Não sei se será melhor com elas ou com pessoas menos belas do que elas.
Infelizmente nunca o poderei saber, pois a experimentação é impossível.

De ATP a 16.03.2013 às 16:22

Não sendo comentador, sinto-me "obrigado" a dizer que as suas palavras, perante a morte, são uma profunda lição de vida. Apreciei a sua humildade, o reconhecimento dos deus medos, da sua fragilidade, sem deixar de manter o "nariz empinado"... (digo isto por pura especulação, não faço a mínima ideia de quem seja a Mariana Pessoa, excepto a ideia nascida da leitura do texto)

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