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18
Fev

Fraturas

por David Crisóstomo

 

Não acho que Portugal seja um pais intolerante. Tenho dificuldade em aceitar que, em comparação com o resto do mundo, se possa afirmar que vivemos num pais xenófobo, racista ou extremista. Aliás, mesmo quando comparada com as suas congéneres europeias a sociedade portuguesa está longe de ser das mais intolerantes (basta olhar para a quantidade de partidos de extrema-direita que por essa União saltitam, para o nível do debate sobre o casamento do mesmo sexo em França, para a situação dos ciganos em Itália ou para as barbaridades ditas por parlamentares e governantes em Budapeste, Bucareste, Berna ou Belgrado). Acredito que vivemos numa sociedade imperfeita que caminha num ritmo calmo mas constante para um pensamento progressista de aceitação do 'outro' e da 'diferença' (cristianismo em estado puro, mas enfim, não quero tirar o spotlight à Santa Sé, eles que se entretenham com os mistérios da fé sobre se Bento XVI deixa ou não de ser Bento, deixa ou não de ter imunidade diplomática, deixa ou não de ser 'Santidade' - deve ser mais importante, estou certo, ámen nisso).

  

Mas é uma outra questão que aqui me traz. Existe, como em qualquer parte do mundo, forças que contestam esta evolução e/ou os seus objectivos. Num contexto de debate democrático, numa sociedade pensante, essas forças expõem os seus argumentos e a sua oposição. Nada mais normal. É saudável até. Todos temos a nossa visão do mundo. Todavia meus senhores, a falha da república portuguesa no seu 103º ano de existência é esta: nós não estamos em contexto de debate democrático. Não minha gente, a sociedade portuguesa não está com capacidade plena de pensamento. Nenhum país com 16,9% da sua população activa desempregada, com mais de 10 mil das suas crianças com fome quando chegam à escola, com mais de 65 mil dos seus cidadãos a quererem abandonar o pais, com 19,6% dos seus nacionais a viverem abaixo do limiar da pobreza e com outros 2,6 milhões em risco de exclusão social pode conseguir debater com clarividência seja o que for que não esteja relacionado com o tema fulcral da nação: a sobrevivência, presente e futura. As pessoas têm medo de não conseguir pagar a casa, de não conseguir dar uma infância feliz aos filhos, de continuar a depender eternamente duns pais idosos, de nunca parar de trabalhar, de não ter trabalho. O país tem medo. Medo duma escuridão, cuja a antítese teima em não se vislumbrar ao fundo do metafórico túnel. Túnel esse que assim parece para muitos não ter fim.

 

Em Portugal não há condições para se debater seriamente nada que não esteja relacionado com a urgência social duma sociedade em empobrecimento. É esta a lusa realidade. E é nesta realidade que muitos se aproveitam para forçar a rejeição ou o retorno ao 'antigamente'. Pois em Portugal o 'antigamente' é uma palavra com bom karma, boa sonoridade. O 'no antigamente é que era bom'. Logo, iluminadas criaturas tem tentado aproveitar-se do estado de apneia da sociedade portuguesa para reclamar um bíblico regresso às origens. Foi disso exemplo a formosa petição que quer Defender o Futuro, apelando às mentalidades do Passado. Nessa petição, seres como João César das Neves ou Isilda Pegado clamam pela mudança da lei do divórcio e pela revogação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, vociferam contra a Educação Sexual e a lei da mudança de sexo, brandam por alterações no financiamento ao ensino particular e cooperativo e na reprodução medicamente assistida. E apelam ao governo mais vil da democracia portuguesa que os ajude nessa divina tarefa.

E a história devia acabar aqui. Não acaba. Porque, sendo dotado duma desonestidade e insensibilidade singelas, este governo ouve esse apelo dos 'bons costumes' e, simpatizando com o discurso da moralidade pura, pisca-lhes o todo-poderoso olho legislativo: "No PSD, o conteúdo da petição foi recebido com agrado, já que lança no debate público e político “temas importantes” para a sociedade. “A petição merece a nossa concordância já que também apoiamos o aumento de políticas de apoio à família” afirmou Nuno Reis, coordenador do grupo parlamentar da Comissão de Saúde". O ex-partido das feiras, da lavoura e dos contribuintes também recebeu a petição com parlamentares pulos de apreço fraterno. Só boas noticias: temas do governo anterior, conservadorismos, patrocinados pela Santa Madre Igreja, polémicos e - ouro sobre azul - numa petição? Obra do Espírito Santo, sem dúvida. 

 

Que a direita portuguesa (já perdi o politicamente correcto 'esta' - a outra direita, que consta que existe, está na sua quase totalidade completamente tumular; se existe mesmo, que dê sinais de vida se faz favor, mande uma pomba ou assim) via nesta crise uma magnânima oportunidade para 'refundar' a economia nacional, desmantelar o chatarrão do Estado Social e maravilharmo-nos com esse fantástico mundo novo da concorrência com os níveis salariais do Bangladesh não era novidade alguma. Agora que pretendia através deste caos social 'razoavelmente em linha' regredir-nos as mentalidades, reacender fogueiras e fissuras morais e dar voz e palanque a fundamentalistas religiosos, eram coisas que eu rezava para que não acontecessem. Pegado e César das Neves sabem muito bem que o governo adora estas coisas 'fraturantes' (adjectivo mais parvo já agora). E crêem que a sociedade está desgastada demais para defender todos estes avanços no campo da igualdade (esse valor cristão, ignorado todos os dias). E aproveitam-se disso, com todo o desplante e a mesquinhez, querendo apagar a última meia-década do passado nacional, voltando tudo ao 'como deve de ser'. E desenganem-se aqueles que pensam que esta estratégia é uma especificidade endémica de sacristães do obscurantismo. Vasco Graça Moura não se cala com a sua defesa da honra das desoladas consoantes sem som, pois já compreendeu a oportunidade d'oiro que pode ter em mãos. E outros casos por ai haverá, sendo o caso das chamadas drogas legais ou as maiores restrições ao consumo de bebidas alcoólicas exemplos frescos de discussões descontextualizadas, que além entrarem na retórica direitista do 'ai o Sócrates fez/concordava com isso?', ainda têm o brinde de pôr os Prós & Contras deste mundo a entreter a populaça - pr'ela não ter que pensar muito na razão de não poder mais uma vez pagar todas as facturas no final do mês.

 

O Governo tem fé que tudo isto passe no parlamento em razoável mezzo-piano. Afinal se Relvas não caiu, porque deverá o Governo temer? As pessoas têm fome e quem tem fome pouco pensa.

 

Preparemo-nos: se este bando de charlatães cumprir a legislatura até ao fim, ameaçamo-nos a não só ficar com uma economia moribunda, como a ter um resultado dum referendo popular completamente desprezado e espezinhado, direitos constitucionais ignorados, conceitos republicanos postos em causa. Preparemo-nos. Deus queira que eu esteja enganado. 

 

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2 comentários

De coder a 19.02.2013 às 00:43

Resta saber onde andavam os defensores do futuro e do povo no tempo das vacas gordas em que se estoirou o dinheiro todo a entreter as pessoas para elas não estudarem nem investirem no desenvolvimento do país. Porque é que na altura em que não havia fome não se discutiu nada disto e se fizeram autoestradas como se não houvesse amanhã? Cá estamos, é amanhã e temos de pagar as propinas das universidades parisienses. O resto é música

De David Crisóstomo a 19.02.2013 às 00:46

"no tempo das vacas gordas em que se estoirou o dinheiro todo a entreter as pessoas para elas não estudarem nem investirem no desenvolvimento do país. Porque é que na altura em que não havia fome não se discutiu nada disto e se fizeram autoestradas como se não houvesse amanhã?"

malhar no Cavaco nunca é demais. clap clap.

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