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03
Fev

O mui nobre e leal militante

por David Crisóstomo

Confesso-me um fã do artigo 37º da Constituição da República Portuguesa. É um artigo porreiro pá. Fala da liberdade de expressão do pensamento & tal. É giro, recomenda-se.

 

Como tal, fiquei um bocado desconfortável perante certas filosofias recentes do Partido Socialista.

Nas últimas semanas, no seguimento de declarações de alguns militantes que referiam a necessidade de se marcar na primeira metade de 2013 um congresso [foram-se inspirar nos estatutos, aqueles irresponsáveis tacticistas], choveram gritos de escândalo e indignação. Começaram com 'não sejam irresponsáveis que isso causa instabilidade' e depressa se transformaram em 'intrigistas! cínicos! é uma cabala!'. Aliás, quando na tarde do dia da Comissão Politica do PS um jornal noticiava na edição online que, "segundo fontes",  António Costa ia avançar com uma candidatura a Secretário-Geral, houve ilustre gente que foi para as portas do Palácio Praia gritar 'Deslealdade!'. "Isto é tudo uma coisa nunca vista" insurgiam-se eles. Houve até quem fizesse comparações com o PSD, para revelar a sua incredulidade com esta manifestação de mau gosto: mas onde é que já se viu haver plebeus que além de terem a lata de pensarem de forma diferente e terem discordâncias com a sacrossanta direcção ainda teriam o desplante de achar que podiam fazer melhor? Mas isto admite-se?! Desafiar o 'Grande Líder'? Mas como ousam?!

 

O resto da história é conhecida. Costa e Seguro assinaram um bizarro tratado de tréguas com o objectivo de defender a 'unidade'.

Ora, como disse Maria de Lurdes Rodrigues no Pares da República:

"Não sei o que isso [unificar o partido] significa, prefiro partidos mais desunificados, mais plurais, devo dizer. E mais vivos, mais dinâmicos. Acho que isso é próprio, é dessa diversidade que vem a riqueza das ideias e a própria evolução das ideias"

Todo o espectáculo criado por dirigentes do PS a atacarem de forma vil e desonesta camaradas seus que nada tinham feito a não ser exprimir uma opinião foi deprimente. Foi indigno dum partido com a tradição democrática do Partido Socialista. Criou-se a ideia que um militante assina uma espécie de 'contrato de fidelização de opinião' quando decide juntar-se ao partido. Que um militante não tem direito à livre expressão, à livre opinião, que deve sempre defender o seu Secretário-Geral e a sua direcção. Ou seja, que abandona o pensamento critico quando decide tornar-se militante.

Diz-se que ao criticar-se dirigentes do partido está-se a ajudar o governo. Que mesmo que se não se tenha votado naquele Secretário-Geral e que se discorde de muitas das suas posições, deve-se defendê-lo, pois é ele o nosso líder e criticá-lo publicamente é trair o partido.

Eu peço desculpa, mas que raio de raciocínios são estes?

Por esta lógica eu ao criticar o governo do meu país estou a trair a pátria não? Estou a atacar o meu país não é?

E se eu criticar posições de outros partidos da oposição? Também estou a ajudar o governo? Devo ignorar a aquilo com que discordo por não vir do 'inimigo nº1'?

Mas os militantes juraram fidelidade cega ao partido? Ter opiniões divergentes, ideias diferentes, discordâncias é sinonimo de 'deslealdade'? Mas desde quando? Porque carga d'água?

 

Situações como as das últimas semanas não se podem nem se devem voltar a repetir. O Partido Socialista não é isto nem o será. Se o objectivo da direcção do partido é abafar e silenciar todos aqueles que a criticam, pensando que assim será vista como a verdadeira e incontestada líder da oposição ao Governo então está redondamente enganada. Não é assim que se constrói uma alternativa ao governo. Uma direcção que se baseia numa premissa totalitária e algo infantil não poderá nunca ser alternativa. 

O PS é um partido plural, onde os seus militantes são seres pensantes, com opiniões próprias e livres - não um rebanho de ovelhas soviéticas.

Este tipo de 'unidade' não é saudável - é tóxica.

 

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1 comentário

De DC a 04.02.2013 às 07:26

Muito bem dito!

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