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O tiro de partida foi dado por Vítor Gaspar: "Existe aparentemente um enorme desvio entre o que os portugueses acham que devem ter como funções do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar". Hoje, Pedro Mota Soares reconhece que a principal fatia de despesa do Estado é feita em prestações sociais e salários. É caso para perguntar onde andou o hoje Ministro quando, membro do defunto partido dos contribuintes, jurou insustentável um aumento de impostos. Era cortar nos post-its e nos agrafes e demais economato do Estado e tudo ficaria resolvido. 

 

Na falência da narrativa das despesas intermédias do Estado, agora a narrativa central parece outra. Por estes dias, o argumento novo-velho é o de que o Estado Social não é sustentável. Na verdade, foi sempre esse o objectivo. Um estado low cost, com uma saúde low cost (daquelas em que se hesita fazer diálise a quem tem mais de 65 anos), protecção no desemprego era só o que faltava (de preferência penalizando as reformas de quem já esteve desempregado, caminho apontado pelo inefável Carrapatoso nesse forum eufemístico chamado Mais Sociedade), com educação low cost(de preferência fazendo de todos os pobrezinhos carpinteiros e picheleiros no final do 9º ano). 

Na verdade, Passos Coelho e sus muchachos nunca esconderam ao que iam. Na tomada de posse como Presidente do PSD, apontaram ao Estado Social desde o primeiro dia, elegendo a Constituição da República Portuguesa como principal inimiga da governabilidade. "vamos rever a Consituição e vamos fazê-lo depressa (...) para quê perder mais tempo?". Primeiro era o "despedimento sem razão legalmente atendível" ao invés do "despedimento sem justa causa". Dizia, mais tarde, Passos Coelho que "queremos reformar o Estado Social para o futuro, sob pena de o nosso Estado Social ficar condenado».

Entretanto, este acto de fé na austeridade expansionista sobrecarrega a Segurança Social, colocando em causa a sua viabilidade. Daqui a nada entraremos na fase em que se ecoará que a Segurança Social não tem futuro e que por isso não vale a pena manter as contribuições. Estaremos, então, a um passinho de partir em postas o negócio, enquanto a banca e as seguradoras esfregam as mãozinhas de contentes. O modelo é facilmente aplicável, por exemplo, ao SNS. E por aí adiante, que nervura criativa nunca faltou a este Governo.
É assim mesmo: esta é a crise na qual Passos Coelho vê a tal oportunidade. A oportunidade de menos Estado, um Estadozinho minimalista, em que é cada um por si e em que a classe média começa nos 300 euros por mês. 
A ver se nos entendemos: quando a lei primordial é vista como obstáculo à governabilidade, é porque quem quer governar não o quer fazer dentro da legalidade. O que diz muito de quem o país elegeu como Governo.

 

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editado por Rui Cerdeira Branco às 23:54


3 comentários

De Carlos Esperança a 27.10.2012 às 22:48

Espero que não esmoreçam no entusiasmo que vos anima.

Estes votos podiam ser formulados em qualquer dos posts que acabei de ler. Optei pelo último. O tamanho dos textos atrai apenas alguns leitores mas os outros são aves de voo curto.

Parabéns.

De mariana pessoa a 28.10.2012 às 01:07

Obrigada, Carlos. Aqui tentaremos ter voz, só isso.

De Inês Corte Real a 28.10.2012 às 17:46

Realmente, Mariana, tenho de fazer uma referência muito especial ao seu texto, porque o que articula neste blog, é de consistência e de textos formulados em entrevistas do nosso Gaspar, que corta em tudo que pode e não deve cortar. Deve a Portugal a sua educação e com devoção diz isto, como se alguém acreditasse! O corte nas pensões dos reformados, que já nem sabem onde apertar mais. Os portugueses andam cinzentos, de olhos tristes e já não têm tempo para sonhar. Contam os euros para a farmácia, desistem qualquer dia de irem aos médicos porque este governo não pensa que estes homens e mulheres trabalharam uma vida inteira, para verem agora as suas pensões "roubadas" e aniquiladas por um Gaspar optimista que até sonha que descobriu a pólvora para pagar à Troika um empréstimo que o povo não pediu. A reforma do estado Social para o futuro está cada vez mais difícil e não vão a lado nenhum com este sistema. A classe média vai desaparecer e cada vez mais o desemprego aumenta. Mas Gaspar é teimoso e só quando, tudo estiver à mingua e na banca rota é que aquela pessoa tão inteligente vai embora dizendo que fez tudo para salvar os portugueses. Continue porque precisamos de si e de outros como vocês. A escrita é também uma arma...... Um Abraço

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.» Ortega y Gasset