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Qualquer semelhança com o texto de Gene Kerrigan no Irish Times não é pura coincidência.

 

Os pensionistas queixam-se de hipotermia, mas quem é que apoia os nossos banqueiros?

 

Já viram contra quem Passos Coelho tem de lutar? Pensam que pessoas como a D. Mariazinha são fáceis de lidar? Porque razão é permitido a esta mulher bloquear a recuperação nacional? Quanto tempo mais teremos de aturar este egoísmo revelado por pensionistas, alunos, deficientes, desempregados e outros que tais?

 

Será que esta gente não se preocupa com o défice? Será que a estabilidade do euro não está entre as suas preocupações? Será que teremos que deixar os banqueiros europeus para trás a pagarem as próprias dívidas às suas custas? Será que não há direitos humanos, ou mesmo daqueles adquiridos, que protejam os accionistas dos bancos?

 

As donas Mariazinhas deste país arrasam os nossos corações. Não têm um só pensamento que seja a favor do sucesso da Grande Guerra Contra Nós Próprios.

 

 

Passos Coelho, graças a Deus, mantém-se firme contra a D. Mariazinha e os da sua espécie. E nós devemos estar ao lado de Passos Coelho, denunciando a irredutível mentalidade do eu-eu-eu que existe em muitos de nós, que falham ao não verem a necessidade de demonstrar a nossa passividade nacional enquanto bons alunos da troika. Que outra forma teremos de obter favores dos nossos especuladores?

 

Nos últimos dias, temos assistido, nós membros do Conselho de Acompanhamento da Austeridade, temos testemunhado uma revolta sem precedentes contra os sacrifícios patrióticos exigidos à população. À medida que se aproxima outro orçamento de austeridade - já aprovado até na especialidade -, milhares de manifestantes (ou uma dúzia deles, dependendo de que estimativas nos estaremos a referir) mostraram a sua índole pouco patriótica.

 

Pensionistas e estudantes, professores e deficientes exibem o seu egoísmo. Manifestam-se com recurso a frases e slogans egocêntricos como por exemplo: "Prometeram aumentar os impostos aos que ganham mais"; ou "Já pagámos para os benefícios que nos estão a cortar"; ou ainda "Preferia não morrer de frio, se não se importarem".

 

Vamos olhar mais de perto o caso concreto da D. Mariazinha. Vamos usar as suas palavras para denunciar o pensamento por trás (do seu) deste frívolo protesto.

 

A D. Mariazinha tem 80 anos. Vive na Madragoa: "A minha casa tem 40 anos", disse-nos. "E está paga".

 

Estão a ver? Como lembra Pedro 'Vespa' Soares, ministro da Destruição do Estado Social, é preciso proteger os pensionistas com reformas baixas, sociais e rurais. É o que se pode considerar de massiva traição intergeracional, na qual os jovens desempregados estão a ser punidos pelos pecados dos mais velhos.

 

Mas pela boca morre a D. Mariazinha. Apesar de criticar o aumento do preço da electricidade e dos combustíveis, que usa para aquecer a casa, admite que pode colocar em funcionamento o sistema de aquecimento na sala e no quarto apenas durante uma parte do dia e durante uma parte do inverno. Fora desse período, sai de casa e vai para locais quentes como estações, centros comerciais e transportes públicos, usando o seu passe de terceira idade.

 

Ou seja: Tem consciência que conseguiria ainda fazer algumas poupanças extra e assim permitir ao país maiores ganhos em termos de austeridade. Se fosse patriótica, claro.

 

"Podia mudar a minha cama do quarto lá de cima para a sala cá em baixo e dormir lá e tudo", Mas teimosa, diz: "Ainda não estou preparada para isso".

 

Oiçam bem: aqui está a voz do egoísmo. Ao ler isto, Passos Coelho é bem capaz de mandar a equipa de apoio ao domicílio da JSD, ou mesmo os polícias disfarçados de desestabilizadores profissionais infiltrados à paisana nas manifestações, mudar-lhe a cama do quarto para a sala. E se não gostar, a D. Mariazinha pode sempre voltar a levá-la sozinha pela escadácima.

 

Este é, aliás, um tempo em que são exigidas decisões muito difíceis aos nossos líderes. No futuro, haverá até tempo para a compaixão. No futuro, haverá tempo para a decência, para a justiça social e crescimento económico.

 

Mas agora não. Do que precisamos agora - e graças a Deus que o temos - é de uma onda imparável de patriotismo dos simplórios sociopatas que governam este país. 

 

Por outro lado, muitos dos cidadãos que tinham acesso ao cheque-dentista, tiveram de sacrificar a saúde oral pelos custos que isso implicaria. As urgências dentárias aumentaram, com pessoas a recorrem, já em última instância, à extracção. O caminho deste governo está a ser pavimentado com os dentes arrancados ao povo. É o patriotismo em acção.

 

Os enfermeiros, acabadinhos de tirar a licenciatura, já nem procuram trabalho em Portugal e seguem patrioticamente à risca as sugestões do Governo. Emigram.

 

As escolas estão, muitas delas, em défice devido ao corte de fundos. As salas de aulas são frias. As salas de aula geladas, têm instalados aparelhos de ar condicionado semelhantes aos dos hóteis de luxo, mas não há dinheiro para a electricidade que gastam. Deixam entrar chuva e até as cantinas já começam a reflectir na alimentação o patriótico esforço de se controlar a dívida pública. Mas sejamos realistas: quando estes miúdos crescerem, os estragos provocados pelas péssimas condições de educação que tiveram durante o ensino obrigatório não serão problema nosso, mas sim de Angola.

 

Há até notícias de medicamentos para doenças muito específicas que simplesmente desapareceram das prateleiras das farmácias. Em nome da eficiência e do esmagamento das margens imposta pelo governo. Deixou de ser racional fabricá-los e ainda menos importá-los.

 

Deixem-me dizer-vos que compreendo a vossa dor, bem como as condições em que vivem. E ninguém ficará mais chateado do que eu e Passos Coelho ao ver o nosso Natal arruinado por uma ou mais mortes provocadas não só pela escassez de medicamentos como por falta de material hospitalar. Como se os médicos já não fizessem milagres suficientes sem austeridade.

 

Uma tragédia, sem dúvida. Mas os nossos críticos nunca se deram ao trabalho de falar na nossa expectativa de crescimento. Ainda que, primeiro, tenha sido para 2013, depois para 2014 e agora, última referência, 2015. Não podem é acreditar nos dados do Eurostat ou da OCDE. Os valores podem ser aquém do que era esperado, mas mesmo assim vale a pena o sacrifício.

 

A D. Mariazinha lembrou-nos ainda, talvez por gostar de ver Marques Mendes a falar na TVI, onde é que se podia cortar e bem na despesa, que o presidente do Conselho de Administração da Parpública SGPS ganha 249.896,78 Euros anuais, 22.3 vezes mais do que o salário médio nacional. O presidente da França recebe cerca de 250 mil euros por ano, enquanto o presidente dos CTT recebe 336.662,59 Euros, 30 vezes o salário médio português.

 

O governador do Banco de Portugal, mesmo tendo abdicado dos subsídios de Natal e Férias como os restantes administradores, ganha 182.809,68 euros por ano, enquanto Ben Bernanke, da Reserva Federal norte-americana recebe 137,760.80 euros por ano. Sonho americano, incluído! Demagogia pura, claro.

 

Então isto não é razão para ter esperança? Para ter orgulho? Não significa, apenas, que temos talentos puros nos lugares certos, mas que podemos igualmente dar-nos ao luxo de lhes pagar consoante o seu talento? Não significa isto que Portugal acredita em si e nas suas capacidades de dar a volta à crise? Não vai o resto do mundo colocar os olhos em nós e dar-nos o devido crédito? Não viverão os gringos escandalosamente ABAIXO das suas possibilidades?

 

“Eu adoro o meu país”, diz a D. Mariazinha, “mas estou a começar a odiá-lo pela forma vergonhosa como estamos a ser tratados”.

 

A D. Mariazinha abre os jornais e vê escrito que há pedintes que vão a tribunal responder pelo roubo de polvo e champô. Lembra-se das palavras de Isabel Jonet e remata: “Queremos viver e morrer com dignidade”.

 

É justo. O problema é que, se for a dignidade contra a estabilidade do euro, ou a confiança dos nossos bancos, ou os chorudos bónus que a elite financeira não dispensa, não há volta a dar-lhe, querida.

 

Posso ainda acrescentar à D. Mariazinha, enquanto tirita de frio na sua casa parcialmente aquecida e com bifes na mesa uma vez por semana – os idosos sempre foram amigos de uma chávena de leite e pão com manteiga ao jantar... –, que quando o preço da electricidade aumentar ainda mais e lhes for retirado definitivamente o desconto de terceira idade no passe social e já nem nos transportes públicos se poderem aquecer, não desesperem.

 

Que se embrulhe na bandeira nacional, naquela grande que está no cimo do Parque Eduardo VII, que o patriotismo aquece mais do que qualquer aquecedor eléctrico, a gás ou ascalfeta.

 

Conclusão: não somos a Grécia e muito menos a Irlanda!

 

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4 comentários

De anonimo a 04.12.2012 às 14:51

Se os filhos da......... voassem nao viamos o sol nascer

De Anónimo a 05.12.2012 às 16:28

Torna-se difícil ser patriótico de um pais que já nem é o nosso...

De anonimo a 08.12.2012 às 09:49

Isso é para um povo ver o quanto é injusto continuar escravizando o seu semelhante, roubando-lhe, humilhando-lhe, como se vê constantemente neste país. Acordem, faz bem, roubar aos outros nunca trouxe prosperidade e agora se vê o resultado dos ideais de um povo milenar.

De Costa a 05.12.2012 às 17:57

Como poderei eu ajudar o meu pais?! Será que este governo foi eleito para fazer o que está a fazer? Será um governo legitimamente representativo da população nacional?!

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