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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

29
Set17

O poder do voto e o voto do poder

João Gaspar

Há um argumento bastante comum no apelo ao voto que revela a relação mais ou menos enraízada dos cidadãos com o poder. O «votem em mim porque tenho influência» nas suas diversas variações, desde a proximidade aos centros de decisão, ao poder mediático ou ao partido que governa. É primo afastado do «rouba mas faz». É a assumpção de que não interessa apenas a capacidade de gestão técnica e política no exercício dos mandatos, mas a facilidade com que determinado candidato ou candidata acede aos mitológicos corredores do poder. Traduz o fascínio que muitos cidadãos sentem por aqueles que detêm momentaneamente um cargo político. Ou, mais retorcido ainda, pelos que se movem no seu círculo pessoal e social. O raciocínio: fulano X é amigo de fulano Y que tem muito poder, portanto vai resolver mais facilmente os nossos problemas. Um anquilosamento na democracia, talvez resíduo tóxico dos tempos em que o poder era exercido por um punhado de escolhidos, no sentido não democrático do termo. O poder político confere um status aos que o detêm ou gravitam à sua volta que ainda é visto e/ou usado como motor de ascensão social. Status esse que, obviamente, favorece quem detêm posições sociais e políticas de maior relevo. Num estranho caldo de desconfiança/ fascínio em relação a esse poder político, muitos eleitores parecem preferir quem lhes garanta a ilusão de um acesso ao poder para resolver problemas que pouco têm que ver com a governança da polis. Conhecer fulano X (que, não esqueçamos, conhece fulano Y) ainda é motivo de gabarolice junto de amigos (que não conhecem fulano X) ou de aceitação/ competição entre pares (que conhecem fulanos equivalentes a X). É, no fundo, mais uma dimensão da estranha relação dos cidadãos com o Estado, irmã do muito pouco democrático "dar uma palavrinha" ou "fazer um jeitinho". Não estará longe da lógica que explica a aceitação social da cunha - nos outros é feio mas se der para mim tudo bem. Nem tão-pouco da lógica de "donos da quinta" que muitos eleitos parecem ter com o cargo que ocupam.
Não creio que aconteça, mas fundamentalmente está nas mãos dos eleitores provocar a mudança nesta relação de forças. Em simultâneo com o fascínio pelo poderzinho parece haver um distanciamento na relação eleitor-eleito ou, pelo menos, na relação do eleitor com a responsabilidade no estado de coisas. Como o Daniel Oliveira dizia num texto  recente (cito de memória): somos todos produtores de democracia e não apenas consumidores de democracia. Ou, por outras palavras, temos aquilo que merecemos porque merecemos aquilo que aceitamos.

 

06
Set17

Responsabilização Parlamentar Permanente

David Crisóstomo

 

Depois de ter andado a resmungar, e para ser mais fácil fazer posts deste géneroonde possamos perceber como votaram os nossos representantes democraticamente eleitos, nasceu uma nova casa:

 

 

Hemiciclo

 

 

Usem e abusem.

 

 

 

 

 

 

PS: o valupi é grande.

 

05
Set17

Autárquicas (I)

João Gaspar

Se, parafraseando Ambrose Bierce, a guerra é maneira de ensinar geografia aos americanos, as eleições autárquicas deviam servir para ensinar a geografia de Portugal aos portugueses. Em vez disso, o passatempo nacional colectivo preferido em tempo de campanha eleitoral autárquica parece ser rir de cartazes e slogans.

Não me interpretem mal: Portugal tem mesmo uma toponímia extremamente engraçada. Da Picha até à Coina, da Azia ao Amor, do Rego até à Branca, enfim, a gargalhada, como muitas rotundas, é incontornável. Ainda por cima a Picha fica ali ao pé da Venda da Gaita, não há fuga possível. Não me interpretem pior: eu gosto mesmo muito de me rir de cartazes e slogans. Mas corremos o risco da gargalhada estilo like & share substituir aquela coisa não despicienda numa campanha eleitoral - a política.

Seria interessante que se aproveitasse o embalo do riso para conhecer, pensar e discutir os problemas de um país que vai funcionando a várias velocidades (e muitas vezes em ponto morto). Infelizmente, parece haver uma relação inversamente proporcional entre as gargalhadas provocadas e o real interesse pelos problemas das populações.

A coisa é mais grave quando o riso é condescendente e paternocentralista. Uma rotunda é uma rotunda é uma rotunda, seja no Marquês ou em Carrazeda de Ansiães. Há um país esquecido, que aparece à tona de campanha em campanha, sob a forma de trocadilhos fáceis e cartazes hilariantes partilhados ad nauseum na era das redes dois ponto zero. Passadas as eleições esse portugal volta pró fundo (vêem?, também sei fazer maus trocadilhos), as populações voltam a cair no esquecimento. Quase ninguém partilhará (d)a sua revolta pela falta de transportes, de acessibilidades, de escolas, centros de saúde, de tribunais. A coesão territorial voltará a ser uma entidade mitológica.

PS (salvo seja): isto não invalida a crítica justa ao desespero que, regra geral, a campanha autárquica encerra. Muitas vezes é mais povoada por guerras espúrias pela chave da quinta do que por propostas pelo desenvolvimento e bem estar das populações, e há um esvaziamento da política que só agrava o abandono.

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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