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365 forte

Sem antídoto conhecido.

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03
Mar17

Truques e Baldrocas

CRG

“Illusion, Michael. A trick is something a whore does for money."

G. O. B

 

Este carnaval foi marcado por uma discussão no twitter entre @ostruques e Ricardo Costa, director do Expresso. 

 

Eu não sigo @ostruques. Do que li, não gostei do seu tom conspirativo e acusatório. Ao contrário do que afirma o camarada Arnaldo Matos "isto não é tudo um putedo" e os jornalistas - quase todos - não fazem truques por dinheiro. Na sua maior parte, as noticias que vi destacadas são fruto de lapsos, incompetência ou, ainda mais interessante, viéses cognitivos. Estes resultam, em parte, da cultura dominante - das respectivas normas, valores e preconceitos - caracteristicos de um determinado período e transparecem no uso de determinadas palavras, no tom ou mesmo na construção da notícia (por exemplo: a forma como é noticiada uma estatística pode resultar em diferentes interpretações). Deste modo, os principais prejudicados ao longo da história são sempre os que normalmente não têm voz: as classes desfavorecidas, as populações das regiões mais remotas, as minorias, etc. Em Portugal, os media centrados nos grandes centros urbanos, em especial na capital, com jornalistas de classe média, habituados a conviver com as elites, acabam, como é natural, por exacerbar esta tendência. No entanto, não é por não gostar dos Truques que considero que estes devam ser proibidos ou que o seu anonimato deve ser impeditivo de apresentaram críticas, desde que dentro dos limites legais.  

 

Ora, a resposta do director do Expresso aos Truques e a quem, devidamente identificado (enfim), criticou o seu jornal e colunistas, foi inadequada, desproporcional e insultuosa. Os Truques não são os KKK. Quem critica jornalistas ou colunistas não é fascistas ou reencarnação de Marcello Caetano, nem pretende acabar com a liberdade de imprensa. O simples facto de ter que explicar algo tão óbvio demonstra como a reacção de Ricardo Costa foi longe demais. E este não ficou por aqui, disse ainda mais duas coisas interessantes.

 

A primeira: os jornalistas lêem os Truques de cócoras. Se uma página no facebook e uma conta no twitter de anónimos conseguem amedrontar uma redacção, receio que o estado do jornalismo está bastante pior do que se imaginava. Como vão noticiar entidades com verdadeiro poder como um grupo financeiro, um empresa ou políticos?

 

A segunda: quem não lê jornais acaba a votar em Trump. Apenas posso falar por mim, mas, com ou sem jornais, nunca votaria em Trump. O que sei é se apenas lesse o Expresso e visse a SIC, teria acreditado que receberia a devolução da sobretaxa do IRS e que o BES era sólido, entre outras manchetes que depois não se vieram a confirmar. Todos se enganam, jornais incluídos. A soberba dos jornalistas como detentores da única verdade é o que, em parte, permitiu a propagação das FakeNews. Estas são difundidas e construídas como noticias por uma razão: durante anos foi criada uma audiência acrítica dos media – “eu li no jornal" era sinónimo de verdade.

 

Acima de tudo, o público merece ser tratado com respeito, como cidadãos inteligentes capazes de pensar por si, com sentido crítico. Estes também estão descontentes com a degradação dos media e com as FakeNews. E de forma a responder a estas preocupações poder-se-ia, por exemplo, criar um sistema de fact-checking dos colunistas, obrigando a que estes documentem perante o jornal todos os factos que alegam, e que um editor confirme essa documentação, como acontece no NY Times*. Infelizmente é mais fácil e barato recorrer ao argumento " ad fascinium".

 

 

*Now, I don’t expect a publication that responds to daily or weekly news to do New Yorker-style fact checking. But it should demand that anyone who writes for it document all of his or her factual assertions – and an editor should check that documentation to see that it actually matches what the writer says.

That’s how it works at the Times, or at least how it works for me. I supply a list of sources with each column submission; for yesterday’s piece it looked like this:

$4.3 trillion: http://www.taxpolicycenter.org/numbers/displayatab.cfm?Docid=3301&DocTypeID=5 lines 2, 3 and 5

Ryan cuts: http://www.cbpp.org/cms/index.cfm?fa=view&id=3723 (I count his Medicaid cuts relative to current policy, not policy including Obamacare)

Disproportionate benefits at top: http://www.taxpolicycenter.org/numbers/displayatab.cfm?Docid=3337&DocTypeID=2

Ryan award: http://www.thefiscys.com/content/sen-kent-conrad-rep-paul-ryan-and-gov-mitch-daniels-named-2011-fiscy-award-recipients

Baseline: http://www.latimes.com/news/nationworld/nation/la-na-ryan-20120817,0,1246452.story

Each time I send in a column draft, the copy editor runs quickly through the citations, making sure that they match what I assert. Sometimes the editor feels that I go further than the source material actually justifies; in that case we either negotiate a rewording, or drop the assertion altogether. Oh, and weasel-wording isn’t acceptable – implying something the facts don’t support is no more OK than stating it outright.

And despite all this, sometimes an error slips through. In that case, the response is a print correction.

Paul Krugman

 

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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