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30
Out

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A pobreza do léxico de Passos Coelho é já sobejamente conhecida. A sua oratória degradada, a tendência para o recurso à breijeirice mais rasca, os constantes pontapés na gramática (que por vezes fazem os seus discursos parecer relambórios de um débil mental) e a redução de ideias complexas a chavões simplórios que recorrem tanto a neologismos de economês como a eufemismos dignos de uma novilíngua new age (infinitamente menos complexa da que foi criada por George Orwell em 1984), transformam Passos Coelho num digníssimo representante da mediocridade generalizada dos políticos actuais, o oposto completo do que deveria ser um tribuno, um estadista, tal como essa figura é descrita n'A República, de Platão. Apenas a colocação de voz atenua as evidentes debilidades discursivas de Passos - e nem sequer vou começar a falar da pobreza de conteúdo e do domínio dos temas, ao nível de uns apontamentos Europa-América.

A verdade é que, apesar desta miséria intelectual, a ascensão dentro do PSD acabou por acontecer, e o seu percurso de glória culminou com a vitória nas legislativas. Parece que ele acha que vai ficar para a História. Poucos portugueses discordarão desta afirmação: Passos ficará para História como o pior primeiro-ministro em democracia, e ao pé dele até Santana Lopes resplandece em fulgor e brilhantismo. Parte do seu êxito como político assenta num bem oleada máquina propagandística (os génios discretos do Governo, contratados aos magotes para os gabinetes ministeriais) e numa das maiores ferramentas com que qualquer político pode contar: o esquecimento. Sobretudo dos eleitores, os que votaram nele acreditando que apenas seriam necessários uns cortes numas gorduras do Estado e não seria "necessário cortar salários nem pensões". A roda do tempo acabará por tudo levar, e foi apostando nesta evidência que Passos (e o Governo) desenhou a sua estratégia. Só assim se compreende que, uma vez mais, tenha repetido a expressão "ponto de viragem", apontando o ano seguinte como o tal, o da recuperação. Tinha sido assim em 2011, em 2012, em 2013. Sempre a mesma expressão, sempre a mesma crença no esquecimento, na credulidade e na estupidez dos eleitores. Esta projecção no futuro de um hipotético êxito apenas acontece porque o presente apenas tem para mostrar o fracasso, a derrota, o desastre. A estratégia de Passos apoia-se no mais débil dos pilares: a esperança. Mas é um recurso em última instância, apenas; projecta-se no futuro a felicidade (como Estaline fazia, com os seus planos quinquenais) porque o presente mostra à saciedade como tudo está a correr mal.  

Um medíocre que atingiu o seu auge há algum tempo, confirmando o princípio de Peter, apenas pode confiar na sorte e em factores que estão fora do seu controle. Passos poderá ganhar as eleições se, por milagre, a economia crescer muito em 2015, se Costa vir a revelar-se uma desilusão, se a Europa desatar a consumir desenfreadamente. Se, se, se. Apenas deste modo. O ponto de viragem depende do acaso. E se podemos confiar em alguma coisa, é no passado. E o passado diz-nos que Passos se enganou em 2012, em 2013, em 2014. Seria preciso sermos bastante estúpidos para acreditarmos que em 2015 será diferente. O verdadeiro ponto de viragem apenas acontecerá no dia em que este Governo for corrido do seu lugar. 

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1 comentário

De Joe Strummer a 31.10.2014 às 15:53


Nunca ceder à duvida. A questão não se põe em termos de crescimento nem de melhor ou pior perfomance do Costa. A única questão é que eles foram longe demais no desprezo, no mal e na mentira. E o grande Pipol não perdoará.

Grande discurso de Ferro Rodrigues. Já me lembra outro PS. É olha-los nos olhos que eles borram-se todos, é como comer moranguinhos de Sintra.

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