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18
Nov

É a desigualdade, estúpido!

por Nuno Oliveira

O Cláudio já aqui referiu como não está de todo estabelecida qualquer relação entre a actualização do salário mínimo e o desemprego. Quem acena esse fantasma tenta apoiar a sua tese num empirismo em que uma empresa luta com dificuldade para sobreviver e o aumento do salário mínimo levaria a empresa a fechar portas. É curioso como a direita tende a lidar tão bem com as insolvências como regeneração da economia excepto se se dever ao salário mínimo.

 

João César das Neves contesta a subida do salário mínimo. Diz ser favorável a uma subida gradual (e mais indicativa do que impostiva) e que esta foi bastante significativa nos anos recentes. Contudo, para quem gosta de avaliar os custos relativos do trabalho, poderia preocupar-se em fazer uma comparação de salários mínimos, por exemplo. Aí, porventura, poderíamos todos concordar que pode ainda subir mais porque em termos relativos continuamos com um salário mínimo muito baixo:

A razão pela qual é absolutamente imperiosa uma subida do salário mínimo é porque permite reduzir a pobreza entre os trabalhadores, permite reduzir as desigualdades. Um dos primeiros pontos na discussão com César das Neves seria desqualificá-lo como ele pretende fazer com todos os que defendem teses contrárias às deles.

 

Para César das Neves todos os que dele discordam são porta-vozes de interesses mais ou menos obscuros. Ora, sendo o aumento salário uma (re)distribuição de rendimentos de capital e de rendimentos de trabalhadores qualficados para os menos qualificados percebe-se que alguns dos que surgem a gritar na comunicação social se mostrem muito incomodados. Aparecem a bater com a mão no peito como se pretendessem defender os pobres quando estão essencialmente a defender de forma mesquinha a sua posição relativa. (O vocabulário foi propositadamente adaptado ao estilo troglodita.)

 

A desigualdade não merece da parte do César das Neves uma palavra séria. Porque razão? Porque não é um problema? Este relatório de 2012 da OCDE apresenta Portugal como um dos países com as desigualdades mais obscenas entre os países analisados.

 César das Neves aparece indignado com a subida enorme do salário mínimo. Com os efeitos que a sua dinâmica possa ter nos custos do "factor trabalho". É estranho, contudo, que outras subidas não o deixem igualmente indignado. Por exemplo no mesmo relatório podemos avaliar a progressão da fracção de rendimento que os mais bem pagos (1%) recebem:

Seria interessante perceber o que César das Neves tem a dizer sobre esta progressão. Seria muito interessante. Mas para que a conversa seja devidamente colocada nos termos em que César das Neves a coloca, deveria comentar apenas depois de dizer se confirma que pertence ao 1% da população mais bem pago.

 

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4 comentários

De Equipa SAPO a 19.11.2013 às 10:19

Bom dia,

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente,

Catarina Osório,
Gestão de Conteúdos e Redes Sociais - Portal SAPO

De Nuno Oliveira a 19.11.2013 às 10:35

Obrigado. ;)

De José C. M. Velho a 19.11.2013 às 12:57

Acho uma perda de tempo passar todo o tempo a falar desse mito norte americano que é o abominável César das Neves. Não há nenhuma prova da sua existência, logo, não existe.

De Pedro Amaral Couto a 27.11.2013 às 17:45

Existem países sem salário mínimo, como a Noruega e a Dinamarca.
Repare que, em ambos os países, as desigualdades estão entre as menores e a progressão do rendimento entre os mais ricos também está entre as menores.

Na Áustria (apesar de estar no mapa), Finlândia, Alemanha, Suécia e Islândia não existe salário mínimo legislado. São produto de acordos para sectores diferentes, fruto de iniciativas nas interacções entre empregados e empresas. É verdade que, no caso da Alemanha, os valores são maiores no gráfico, mas no outro gráfico, é mostrado claramente que em todos esses países os valores relativos às desigualdades são menores.

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