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A ideia de primárias abertas a simpatizantes tem muitas virtudes, considere-se a proposta apenas com âmbito concelhio para os candidatos às eleições autárquicas ou também de âmbito nacional com a escolha do candidato a primeiro-ministro. Tem também alguns riscos que são contudo claramente ultrapassados pelas vantagens. 

A principal vantagem advém do facto de, através das primárias abertas a independentes, se permitir escolher tendencialmente um candidato mais representativo do espaço político em causa do que reservando esta escolha apenas a militantes. Sendo o candidato mais representativo, é de acreditar que tenha melhores condições para sair vencedor que um candidato menos representativo. Acresce o facto de o processo ser legitimador e mobilizador. Adicionalmente, a campanha das primárias serviria para aclarar a mensagem e ocupar espaço mediático que reforçaria naturalmente a mobilização em torno da candidatura escolhida. [como já aqui tinha dito.]

 

Há também alguns aspectos negativos, há que reconhecer. Não valorizo muito a ideia de que o  campo político antagónico poderia interferir na escolha. Este raciocínio parte do princípio que pode haver uma candidatura indiscutivelmente melhor que outra para o principal adversário. Não acredito que o cenário possa alguma vez ser tão evidente para o adversário (que não o seja também para os simpatizantes que votam) nem acredito que se conseguisse fazer uma mobilização de larga escala para tal propósito. Tal estratégia teria muitos risco para o campo adversário. Desde logo, contribuir para a ideia de sucesso da iniciativa e mostrar uma abrangência que não corresponderia à realidade.

 

Os riscos mais relevantes parecem-me uma possível autofagia das candidaturas na praça pública bem como uma excessiva personalização que permita que o discurso político fique ligeiramente mais vulnerável à demagogia. Esse risco é muito grande se se tomar como exemplo a agressividade das primárias nos Estado Unidos em que não poucas vezes os argumentos esgrimidos nas primárias são aproveitados pelo campo político opositor na eleição geral. Reconhece-se que este risco é tanto maior quanto maior for a proximidade doutrinária que leva a que a escolha se centre mais nas características pessoais.

 

Ora, este é um risco com que já hoje em dia vivemos, se tivermos presentes as candidaturas à liderança dos principais partidos que já quase funcionam implicitamente como primárias para o cargo de primeiro-ministro. É um risco indissociável do processo mas que não parece ter grande expressão quando se observa a moderação das candidaturas internas em Portugal.

 

Tudo indica que este processo se imporá nos partidos. Nos maiores partidos, pelo menos. Só algum conservadorismo pode explicar o receio de adoptar uma solução que aparenta ter tantas vantagens. Da mesma forma que se reconhece facilmente que um Secretário-Geral eleito na totalidade do universo de militantes, numas directas, é mais representativo que um outro eleito em congresso, de igual modo um candidato a Primeiro-Ministro será mais representativo se puder se eleito num universo que inclua também simpatizantes que um candidato escolhido apenas por militantes.

 

O Partido Socialista soube ser pioneiro na adopção de eleições directas para a escolha do Secretário-Geral. Esperemos tenha a capacidade de ser mais uma vez pioneiro.

 

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