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11
Nov

Variáveis e fractais políticas

por Pedro Figueiredo
No último relatório publicado pela OCDE, a preocupação vem estampada nos números. Segundo as estimativas daquela organização, Portugal parece estar condenado a um crescimento anual de 1,4 por cento. E não será até ali ao virar da esquina. É uma estimativa para as próximas cinco décadas. O que quer dizer até 2060.


Sorri ao ler a notícia e lembrei-me de Nassim Nicholas Taleb, o autor do famoso Cisne Negro. Por ter passado pelas maiores empresas norte-americanas de consultoria financeira como analista quantitativo (como por exemplo o Credit Suisse First Boston, com escritório pomposo na baixa de Manhatan), a forma como o autor desconstrói ao longo da obra toda e qualquer teoria económico-financeira simplesmente baseado no pilar da aleatoriedade chega a ser desconcertante. Chega mesmo ao limite de comparar os actos de adivinhar e de prever. Risco incluído.


Chega mesmo a falar num insuspeito suíço do Instituto Tecnológico Federal da Suíça, em Zurique nos seguintes moldes: «O meu amigo Didier Sornette tenta construir modelos de previsão, que eu adoro, apesar de não os poder usar para fazer previsões - mas por favor, não lhe conte, não vá ele parar de os construir.»


Taleb conta que nas empresas de consultoria financeira onde trabalhou, a sua função era desenvolver fórmulas matemáticas que gerassem modelos de aplicações financeiras. Fórmulas assentes em variáveis e fractais (usando quadros com a curva gaussiana que Taleb simplesmente odeia e diz mesmo ser a fonte de todo o mal - a famosa curva em forma de sino) que apenas uma dúzia de iluminados no Mundo percebe o que dali pode resultar. Para o bem ou para o mal.


O problema é que essas variáveis e fórmulas criaram de tal forma uma dependência na organização da estrutura na qual assenta a economia mundial que acabou por contaminar e limitar as políticas que os governos têm de tomar. E as democracias estão a ressentir-se disso mesmo. As escolhas políticas feitas pelo eleitorado não estão a reflectir-se na verdadeira representatividade popular a que o voto confere.


No entanto, fico, esperançado, com uma dúvida: se já hoje nem sequer se consegue prever se uma execução orçamental terá sucesso no trimestre seguinte, que credibilidade terá um estudo cujos resultados só serão conhecidos daqui a 50 anos?


P.S.: Pode parecer off topic, mas não é. Se gosta de Le Carré, então não vai querer perder isto.

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