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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

03
Nov13

Mais uma chávena

David Crisóstomo

O ex-presidente da Assembleia da República, o deputado do PSD Mota Amaral assina um artigo publicado ontem no Expresso onde começa por enumerar umas redundâncias e umas teorias da "boa fé" dos almas que nos governam, para depois criticar veemente algumas medidas anunciadas, nomeadamente aquelas que procuram alterar as fundações da Segurança Social. Ora, pois, muito bem, que bom, um deputado do PSD, um ex-presidente do Governo Regional dos Açores, um membro ilustre da direita nacional a dizer umas verdades sobre a fraca racionalidade desta governação do "1640 financeiro". Palminhas para o senhor, pensei eu. Até que me lembrei do que se passou há menos de um ano. E de um [gigante] comentário que deixei na caixa de comentários do Aspirina B a propósito desta mesma crónica e do qual deixo aqui um excerto:

 

"No artigo publicado há 2 luas no Correio dos Açores, Mota Amaral é critico do governo. Verdade seja dita que nele martela. Seja nas passagens em que refere que a ‘persistente apresentação de previsões erradas e os constantes anúncios e recuos de novos gravames arrastam’ o presente Governo para a descredibilização, seja noutras em que lamenta que o mesmo tenha ‘vindo a ficar isolado’. Mota Amaral chega a escrever que ‘a situação geral do País, em vez de melhorar, como o Governo promete e todos desejaríamos, tem vindo a degradar-se e basta ter os olhos abertos para comprovar o alastramento de uma verdadeira catástrofe. Ora, o enorme aumento de impostos determinado para 2013 vai reduzir contribuintes à insolvência, fazer falir muitas empresas, aumentar o desemprego. A entrada em aplicação das leis que facilitam os despedimentos e os despejos só pode piorar, inoportunamente, a fractura social.’ Mota Amaral não está a gostar da coisa, já entendemos. Mota Amaral não quer catástrofes. Acha mal isso. Mota Amaral está preocupado com o armagedom social criado pela firma Pedro, Vitor & Miguel (ah e o ‘terceiro’, aquele do CDS, já me esquecia). Pois bem, até aqui, tudo bem, tudo nos conformes, força nisso camarada Mota Amaral! Contudo, ao lermos o texto publicado deparamos-nos com certos contra-sensos que nos relembram que estamos perante um membro da elite politica que em 2011 decidiu, por egoísmo e ânsia lunática por poder, derrubar um governo democraticamente eleito para poder chamar os patrocinadores estrangeiros da ‘refundação’ (ou, como José Luís ‘a-Grécia-não-é-um-pais’ Arnaut ontem descreveu, ‘Qual crise politica?’). Mota Amaral escreve que é ‘óbvio que sempre precisámos de mais tempo e de mais dinheirosó por teimosia se amarrando o Governo ao dikat socrático, aliás apresentado ao País, com frivolidade, para não dizer com desfaçatez, pelo principal responsável da nossa derrocada financeira, como um mar de facilidades, com sacrifícios mínimos’. Mota Amaral acha que o anterior governo foi frívolo, que fez as coisas com desfaçatez, que foi o causador-mor do nosso ‘fiscal cliff’ – isto é, Mota Amaral continua agarrado à tese do mauzão do Sócrates, que com o auxilio dos seus capangas foi o grande culpado da crise actual. Que foi ele que fez isto tudo e que, ora veja-se a lata daquele Primeiro-Ministro, ainda apresentou o memorando com desfaçatez. Mota Amaral vive ainda no ‘Duarte Marques World’, esse belo quadro onde o Moedas repetia que bastava correr-se com a besta da Parque Escolar e das Energias Renováveis e iam ver-se as agências de rating a enviarem bouquets de flores aos molhos pra São Bento; essa magnifica fantasia onde a crise europeia só existia nos contos dos irmãos Grimm, onde a Comissão Europeia e o BCE não tinham apoiado todas as letrinhas legislativas emitidas por esse governo dos sete cavaleiros do Apocalipse socialista, onde a crise financeira de 2008/2009 tinha sido uma leve brisa económica, onde Cavaco Silva não tinha jamais sido chefe de governo durante uma década, enfim, um encantador sonho cor-de-laranja. Mota Amaral ainda acrescenta que o vilão da história de 2011 apresentou o memorando (aquele que nunca quis & que tudo e mais alguma coisa fez pra evitá-lo) como uma coisinha fácil, simplória, com mini-sacrifícios. Por outras palavras, Mota Amaral na campanha das legislativas de 2011 estava isolado numa cabana no fundo da cratera do Caldeirão da ilha do Corvo, incontactável, a léguas do mundo e dos discursos em que o PSD repete em tudo o que é sítio que ‘há que cortar nas gorduras’, que ‘temos que acabar com o estado paralelo, com o estado gordo’ e que ‘cortando nos institutos, nas fundações e nos organismos despesistas’ a República voltaria a prosperar. Nada disto chegou aos seus ouvidos. Mas Mota Amaral não se fica por este momento pitoresco. Não não, o predecessor de César no governo regional volta à carga quando refere que o memorando de entendimento terá sido ‘negociado pelo Governo anterior com pressupostos pelo menos errados, se é que não foram mesmo manipulados por má fé. O défice das contas públicas era afinal superior ao então admitido, conforme se veio a verificar posteriormente’. Mota Amaral crê, com todas as células do seu íntegro ser, que o malfeitor do Governo anterior, de modo a lixar o pessoal, foi fabricar um memorando fictício, horribilis, impraticável. Que sua excelência Dom Catroga tenha dito na altura que a negociação do memorando tinha sido ‘essencialmente influenciada’ pelo PSD é uma cena que ao Dr. Mota Amaral não assiste. Que o marido da Laura tenha confessado que existia por parte das suas gentes um ‘grau de identificação importante’ com o malfadado memorando é algo que Mota Amaral desconhece. Aliás, pela referencia já arcaica à fábula do ‘desvio colossal’ no défice das contas públicas podemos empiricamente compreender que algo está mal na cabeça de Mota Amaral. O actual deputado do PSD é crítico da governança que nos arruína por estes dias. Testemunhas disso são as passagens em que ridiculariza dois mantras deste governo: o do ‘não precisamos nem de mais tempo, nem de mais dinheiro’ (que pra qualquer humano com uma idade mental superior a um cachorrinho recém-nascido seria mais que óbvio) e o ‘é preciso ir para além da troika’ (que qualquer ninhada gatinhos percebe ser a barbaridade mais estúpida referida por um chefe de governo). Mas o seu código genético de apoiante inicial deste governo e desta estratégia messiânica infundada trai-o ao longo de todo o artigo. Para que escreveu então Mota Amaral no Correio dos Açores? Ora, essa é fácil. Em duas palavras: Cavaco Silva. Seguindo a estratégia do pastel de Belém (também ele um fiel recriminador religioso do mal socrático, adepto primitivo desta bondosa gente & arrependido perante o cataclismo nacional – a troika de sentimentos que por estes dias corrói o PSD tradicional), Mota Amaral procura resguarda-se da iminente queda do vil grupo personagens que correntemente fatiam o Estado. Sabe que está próxima, que não deve tardar, que não quer ver no futuro próximo o seu nome associado a este baralho de patos bravos. Logo discorda agora, para no futuro ser assim recordado. E nisto ficamos. As benditas almas do PSD, de Santa Cruz das Flores a Santo Aleixo da Restauração, começam, a pouco e pouco, a dizer que não têm nada a ver com estes tipos, que nunca fariam o que eles fazem, que deles discordam, que não os compreendem. Mas João Bosco Soares Mota Amaral tem um problema. É que no vigésimo-sétimo dia de Novembro não estava na sua casa de Ponta Delgada a beber um chá da Gorreana e a ler o Açoriano Oriental. Não, Mota Amaral estava ocupado nesse dia. Estava em Lisboa. A votar favoravelmente a um Orçamento de Estado que tudo indica irá levar o seu país a uma ‘verdadeira catástrofe’ sem precedentes na nossa história democrática. E isso recordar-se-á."

 

Passados nove meses, Mota Amaral volta a insistir na fórmula da descolagem, do afastamento técnico, do "eu nunca faria isto". E passados nove meses, eu volto a tirar a mesma conclusão face ao artigo publicado no Expresso: sim sim, é uma perspectiva muito interessante e tudo isto é muito revoltante, mas onde estava o sôtor na passada sexta-feira? É que me pareceu vê-lo levantar-se, algures nas últimas filas da bancada da maioria parlamentar, na altura em que a Assunção Esteves solicitava: "Os senhores deputados que votam a favor". Os deputados que votavam a favor de um Orçamento de Estado que prolonga e agrava a «verdadeira catástrofe» criada nestes últimos anos. É que se não se revia na lei que estava a ser votada, então que votasse contra, como fez o seu colega Rui Barreto do CDS-PP/Madeira. Chama-se coragem, senhor deputado. Sentido de Estado, dever moral, representatividade parlamentar. O que quiser. O senhor deputado Mota Amaral preferiu voltar a votar a favor e depois escrever um artigo mais sisudo para o Expresso, para passar a ideia que não gostou do que aprovou. Que não entende certos princípios do diploma aprovado. Que não pensa daquela forma. Que não foi um ilustre "aprovador" de catástrofes. Mas ai é que está: foi. Neste quadro constitucional, os deputados (ainda) são os representantes do povo e à sua vontade (ainda) estão sujeitos. E como bem disse um eminente parlamentar português, a Constituição não está suspensa.

 

 

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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