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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

20
Out13

Brincar com o fogo

Nuno Pires

 

A minha tarde de sábado foi passada a fotografar a manifestação organizada pela CGTP em Lisboa. Das várias fotografias tiradas, destaco aqui a de uma cidadã que, erguendo a bandeira de Portugal, empunhava um cartaz com uma mensagem. Tirei várias fotografias a esta manifestante, não raras vezes cabisbaixa, quase sempre em silêncio e denotando, de forma clara, desânimo.

 

Este desalento era visível também no semblante de alguns outros manifestantes, chegando por vezes a contrastar com aqueles que, de forma mais expressiva, demonstravam o seu protesto.

 

A este aparente desânimo de alguns manifestantes, juntou-se uma constatação que me foi transmitida pelo David Crisóstomo: o facto de haver, aparentemente, menos pessoas na manifestação deste sábado do que aquelas que houve noutros protestos recentes, também promovidos pela CGTP. E isto apesar de esta manifestação ocorrer no final da semana em que foram conhecidas as medidas constantes do Orçamento do Estado para 2014.

 

Poderá ser apenas uma perceção menos correta da minha parte, mas estes sinais levam-nos a recuperar e reforçar uma interrogação já lançada no passado: se não estaremos perante um certo desalento ou fadiga do protesto, nos seus moldes tradicionais, que leva a que vários cidadãos, independentemente das dificuldades que estejam a atravessar (ou que antecipam atravessar, face às novas medidas recentemente divulgadas*), já não encontrem no protesto organizado uma forma válida para fazer ouvir as suas reivindicações.

 

Estes são sinais que deveriam preocupar, desde logo, o Governo, apesar de não parecerem incomodar, de todo, os nossos atuais líderes. Com uma austeridade crescente, da qual não são visíveis quaisquer resultados positivos mas apenas um empobrecimento crescente da população, a que se soma o desmantelamento da rede de proteção assegurada por um Estado Social sob ataque, é mais do que certo que assistiremos a um reforço do aumento de situações de desespero (já atualmente em crescendo), o que poderá conduzir a atos irrefletidos e imprevisíveis, de cidadãos que já não têm nada a perder, e cujo impacto e propagação, num País em desagregação e numa União periclitante, poderão abalar de forma irreparável o nosso regime.

 

Já não é de agora, mas importa reiterar: este Governo está a brincar com o fogo - e quem se arrisca a sair seriamente queimado somos todos nós.

 


* - Dizer-se que as medidas constantes do Orçamento do Estado para 2014 eram já conhecidas desde maio passado é uma injuriosa tentativa de passar um atestado de estupidez a toda uma nação. Ainda por cima quando o próprio Governo, na pessoa do irrevogável vice-Primeiro-Ministro, alegou desconhecer os moldes de uma das medidas mais ignóbeis do OE2014 como desculpa para não a ter mencionado numa conferência de imprensa recente.

 

 

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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