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20
Out

Brincar com o fogo

por Nuno Pires

 

A minha tarde de sábado foi passada a fotografar a manifestação organizada pela CGTP em Lisboa. Das várias fotografias tiradas, destaco aqui a de uma cidadã que, erguendo a bandeira de Portugal, empunhava um cartaz com uma mensagem. Tirei várias fotografias a esta manifestante, não raras vezes cabisbaixa, quase sempre em silêncio e denotando, de forma clara, desânimo.

 

Este desalento era visível também no semblante de alguns outros manifestantes, chegando por vezes a contrastar com aqueles que, de forma mais expressiva, demonstravam o seu protesto.

 

A este aparente desânimo de alguns manifestantes, juntou-se uma constatação que me foi transmitida pelo David Crisóstomo: o facto de haver, aparentemente, menos pessoas na manifestação deste sábado do que aquelas que houve noutros protestos recentes, também promovidos pela CGTP. E isto apesar de esta manifestação ocorrer no final da semana em que foram conhecidas as medidas constantes do Orçamento do Estado para 2014.

 

Poderá ser apenas uma perceção menos correta da minha parte, mas estes sinais levam-nos a recuperar e reforçar uma interrogação já lançada no passado: se não estaremos perante um certo desalento ou fadiga do protesto, nos seus moldes tradicionais, que leva a que vários cidadãos, independentemente das dificuldades que estejam a atravessar (ou que antecipam atravessar, face às novas medidas recentemente divulgadas*), já não encontrem no protesto organizado uma forma válida para fazer ouvir as suas reivindicações.

 

Estes são sinais que deveriam preocupar, desde logo, o Governo, apesar de não parecerem incomodar, de todo, os nossos atuais líderes. Com uma austeridade crescente, da qual não são visíveis quaisquer resultados positivos mas apenas um empobrecimento crescente da população, a que se soma o desmantelamento da rede de proteção assegurada por um Estado Social sob ataque, é mais do que certo que assistiremos a um reforço do aumento de situações de desespero (já atualmente em crescendo), o que poderá conduzir a atos irrefletidos e imprevisíveis, de cidadãos que já não têm nada a perder, e cujo impacto e propagação, num País em desagregação e numa União periclitante, poderão abalar de forma irreparável o nosso regime.

 

Já não é de agora, mas importa reiterar: este Governo está a brincar com o fogo - e quem se arrisca a sair seriamente queimado somos todos nós.

 


* - Dizer-se que as medidas constantes do Orçamento do Estado para 2014 eram já conhecidas desde maio passado é uma injuriosa tentativa de passar um atestado de estupidez a toda uma nação. Ainda por cima quando o próprio Governo, na pessoa do irrevogável vice-Primeiro-Ministro, alegou desconhecer os moldes de uma das medidas mais ignóbeis do OE2014 como desculpa para não a ter mencionado numa conferência de imprensa recente.

 

 

 

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6 comentários

De Miguel Cabrita a 20.10.2013 às 09:02

O desalento e ar quebrado da senhora talvez se deva ao facto de ela se ir apercebendo que estes protestos são cada vez mais um ritual, um trunfo político destinado a apresentar a saúde da "democracia" portuguesa, esgrimido por todos os quadrantes políticos incluindo por Arménio Carlos.

Estas manifestações hoje não passam de rituais "democráticos", não têm qualquer consequência prática, são dispersos e estão muito longe de poderem ser considerados emanações do desespero e profundo descontentamento dos portugueses.
Mais grave é que são manipuladas politicamente A CGTP cedeu às exigências do governo a propósito da questão da ponte, numa altura em que se poderia esperar dela uma posição de força. O que tivemos foi o seu líder a assegurar uma posição de membro "respeitável" do regime, ao não o afrontar, ao acatar pacificamente as ordens dadas.

Embora tenha havido manifestação, o que ocorreu foi uma simulação de protesto, de acordo com os ditames da autoridade e sem a afrontar. Com o tempo as pessoas apercebem-se disso e vão olhando para o lado sem ver nada nem ninguém que lhes dê esperança.

De Nuno Pires a 21.10.2013 às 09:45

Miguel, obrigado pelo teu contributo.

De Anónimo a 21.10.2013 às 09:57

«... o que ocorreu foi uma simulação de protesto...»a mim parece-me que existe é uma simulação de cobardia, as pessoas sentem-se lesadas por este governo e não reclamam. Não reclamam nas manifestações, assim como, não reclamam nas eleições, pois continuam a votar em quem os rouba à descarada
«Mais grave é que são manipuladas politicamente A CGTP cedeu às exigências do governo a propósito da questão da ponte, numa altura em que se poderia esperar dela uma posição de força...»
Outro erro, é pensar que tem de ser a CGTP a tomar medidas ou posições fortes. Mentira, se não forem as pessoas a aderir e manifestarem-se nas iniciativas, essas iniciativas deixam de ter força. A CGTP promove e coordena as manifestações, as pessoas dão o seu contributo com a presença e a sua revolta. Parece que as pessoas não se sentem revoltadas com os roubos, ou sentem vergonha de terem votado neles, mas há sempre tempo para o arrependimento...

De Equipa SAPO a 21.10.2013 às 08:47

Bom dia,
este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Ana Barrela - Portal SAPO

De Nuno Pires a 21.10.2013 às 09:46

Obrigado Ana.

De Rodrigo Teles a 21.10.2013 às 11:00


Estou muito revoltado com a situação que vivemos em Portugal, não encontro palavras para classificar a nossa classe politica. No entanto não participo nestas manifestações, o que resulta delas são números e vitórias politicas, de um ou outro partido, neste caso do PCP. As manifestações devem ser independentes de forças politicas, não devemos deixar que nos manipulem. A nossa maior força é o voto, que na minha opinião deve ser em BRANCO.

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