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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

08
Out13

A crise também passa por aqui

David Crisóstomo

 

 

Isto nem tem piada. Não merece ser analisado com piada, sarcasmo ou ironia. Merece entristecer toda uma sociedade. Deixar essa sociedade roxa de vergonha. Envergonhada, embaraçada, indignada. Porque isto provoca indignação. Provoca espanto e incompreensão. Falha à minha capacidade de compreensão, pelo menos. É um falhanço. Pois há um dirigente de um partido, com assento parlamentar e presente na coligação que por estes dias diz que governa o meu país, que aparenta acreditar que houve um governo legitimo e democraticamente eleito que foi pior que décadas de ditadura, de fascismo, de repressão. Este dirigente foi, em eleições livres, eleito deputado da Assembleia da República Portuguesa. Votou revisões constitucionais. Votou orçamentos de estado. Votou tratados internacionais. Participou em comissões parlamentares, onde inquiriu e legislou em nome dos cidadãos portugueses. Mais tarde, este mesmo dirigente partidário, foi eleito, também democraticamente, deputado no Parlamento Europeu. Representou nos últimos anos os cidadãos europeus. Falou e agiu por eles. Foi um agente da democracia. Este dirigente, Nuno Melo do CDS-PP, decidiu, num espaço de meses, repetir por duas vezes em canais públicos portugueses que o governo chefiado por José Sócrates tinha sido "o pior Governo de Portugal desde o fim da I República". Ou seja, não só o pior em quase 40 anos de democracia, como pior que todos os governos que compuseram os 48 anos do regime anterior, que censurou, prendeu, perseguiu, torturou e matou cidadãos portugueses. Nuno Melo acha que Sócrates foi pior que Salazar. Nuno Melo é uma besta. Uma besta que me envergonha, uma besta que me revolta, uma besta que desprezo. Nuno Melo, essa besta que também me representa numa assembleia parlamentar, brinca com a democracia. Desafia a sua solidez. Que é pouco sólida nestes tempos em que se questiona o direito a ter direitos. Comparações como esta iluminam mentes obscuras em tempos de abstenção galopante e de apatia generalizada para com os orgãos de soberania. A crise também passa por aqui, nestes tempos de desdém. Nuno Melo insulta o regime que lhe dá a palavra, numa altura em que muitos vêem a sua ignorada. Pois é com provocações destas, com animalidades deste calibre, que são incutidas falsas ideias e conceitos. Conceitos perigosos numa república como a nossa. Conceitos que extinguem uma democracia. Uma democracia que nos dá direitos, liberdades e garantias, que nos dá modernidade, que nos garante o mínimo de civilidade. Uma democracia onde se defende o direito à liberdade de expressão de todos os cidadãos. Incluindo aqueles, como esta besta, que o usam para ameaçar o regime que lhes concede tal tesouro. 

 

 

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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