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Ando há uns tempo a demandar por maior vigor, clareza, acutilância e abrangência nos temas e causas que o PS vem patrocinando pelo país na luta contra o atual governo mas não me alegro particularmente com isto que escreveu hoje Carlos Zorrinho no Correio da Manhã:

"(...) Imagine que o PSD e o PP têm um bom resultado. Passos ligará afirmando ... a malta aguenta! Ai aguenta, aguenta! Como diria Ulrich! Se, pelo contrário, o resultado for mau para o PSD e o PP, Passos será tentado a referir que o povo já não se deixa enganar. É preciso mais espaço para a economia respirar sob pena da instabilidade política e social se tornarem incontroláveis. E se ele não o disser, dirá Paulo Portas por ele. Dia 29 de setembro todos os portugueses vão ajudar a escrever a carta que Passos mandará à Troika no dia seguinte. É uma enorme responsabilidade. Estejamos conscientes disso ao exercer o nosso direito cívico."

 

Esta não percebo. Mas nós vamos votar em autarquias ou sufragar o governo? Por muito que os queira ver pelas costas não vou votar anti ou pró Passos Coelho ou PSD ou Portas ou CDS. Vou votar para a câmara municipal, para a assembleia municipal e para a junta de freguesia da minha residência.

 

Quantos eleitores condicionarão o seu voto para dar cartões ao governo numas autárquicas? Alguém é capaz de responder? Um eleitor que vote num movimento dissidente local do PSD ou do PS como será contado no apuramento de resultados de "leitura nacional"? Consta que os movimentos independentes serão cerca de 80 em 308 municípios. Serão inexpressivos na contagem final?
Provavelmente em cidades grandes onde a figura da Câmara se confunde com o Estado haverá maior diluição da natureza local destas eleições. Provavelmente... Mas expliquem-me lá como devo "ler" nacionalmente os votos numas eleições com tantas singularidades? Como "ler" mandatos que se conquistam com ou sem coligações? Como comparar com eleições anteriores com ou sem dinossauros? Como responsabilizar nacionalmente as lideranças partidárias que condicionam pontualmente as escolhas decididas localmente pelas estruturas dos partidos? Resumimos a interpretação nacional ao que se passar nos dez maiores municípios? Ou mesmo que será uma vitória clara e uma derrota clara?

No final, eu quero é a minha terra, a minha autarquia bem gerida e como toda a gente intelectualmente honesta saberá, a marca partidária como condicionante da prática política, ao nível local, tem um peso muito diferente (tipicamente muito menor) do que tem a nível nacional. Assim sendo, não é por aí que se pode extrapolar para o país e a governação nacional.

 

Se querem leituras globais, atendendo particularmente à natureza da crise, as eleições europeias permitirão aí sim, uma clarificação quanto à política que se pretende para a Europa e para o país. Essas sim intrincadas até ao tutano. Agora numas autárquicas?! Só mesmo perante um movimento transversal muito significativo de subida ou descida eleitoral que não possa ser diluido nas singularidades múltiplas das eleições que se avizinham. Não digo que não aconteça e que, nesse caso, as ilações não devam extravasar da avaliação estrita de uma disputa autárquica, mas não é uma leitura que faça sentido em condições normais.
A ser assim, mais valia então que autárquicas e legislativas se fundissem num único ato eleitoral. Faz sentido? As europeias com as legislativas não me chocaria, de todo, agora nestas, não tem qualquer lógica.

 

Dito isto, e perante a aposta neste raciocínio de contaminar as autárquicas com uma leitura nacional a que Carlos Zorrinho faz apelo, naturalmente, caso não haja uma vitória muito clara a 29 de setembro (bem para lá de ter mais um voto que o PSD), tudo se prepara para uma convulsão interna. E, face a isto que escreve hoje um lider nacional do PS, cada vez mais justificada se o dia eleitoral não correr de feição!

 

Mas tenho imensas dúvidas que o eleitorado encare isto de forma compreensivel. Desconfio que uma parte relevante estranhará tanto quanto eu, isto resumindo-me ao universo aparentemente exíguo dos que ligam (ver Diário de Notícias hoje onde se afirma que só 9 em cada 100 portugueses confiam nos partidos).

"É a realpolitik, estúpido!", vão-me dizendo. Provavelmente. Provavelmente, as rodas já estarão em movimento banalizando o aproveitamento imediato de uma "prova" mais ou menso difusa de fragilidade da atual direção e tudo isto não passa de uma reação, ou de um recado, ou de um episódio de uma batalha que tem tanto de externa quanto de interna no PS. É confiar que o eleitorado terá tempo para se ajustar. Ele aguenta... ai aguenta, aguenta.

 

Talvez, mas é também em momentos de grande pressão que se dão os exemplos, que não se cede a oportunismos, exemplos que estruturam ou desestruturam os regimes e neste caso, falha-me a capacidade de vislumbrar algo de positivo pensando no futuro.

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