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365 forte

Sem antídoto conhecido.

Sem antídoto conhecido.

16
Out17

MAI

CRG

"Para mim, pessoalmente, seria o caminho mais fácil. Eu ia-me embora, ia ter as férias que não tive. Isso resolvia o problema? Não, não ia resolver o problema"

Constança Urbano de Sousa.

 

A minha vasta ignorância sobre o tema de incêndios e protecção civil não me permite fazer juízos de valor sobre a actuação da Ministra de Administração Interna. No entanto, a MAI, com aquela frase, deixou de ter condições políticas para se manter no cargo finda a época de incêndios (uma eventual demissão antes poderia ser prejudicial, uma vez que traria confusão e instabilidade).  

 

Numa tragédia nacional uma das funções dos responsáveis políticos é transmitir compaixão e conforto às vítimas. Falar da ausência de férias parece equiparar, mesmo que não intencionalmente, o seu "sacrifício" ao sacrifício de quem perdeu familiares e amigos, de quem ficou sem nada. Isto é inaceitável. 

 

Como se não fosse suficiente, esta declaração ainda tem laivos da tese salazarenta, segundo a qual estão no cargo com grande sacrifício pessoal e que quem critica é um mal agradecido. Ora, esta tese serve apenas para desprestigiar a política e desresponsabilizar os respectivos titulares. Felizmente, em democracia espera-se muito mais.

03
Out17

Rescaldo Autárquicas - os marginalizados

João Gaspar

Nestas autárquicas de 2017 MAS, PURP, LIVRE, Nós Cidadãos, JPP*, PDR e dezenas de grupo de cidadãos eleitores estrearam-se em eleições locais. Em tempos da tão badalada regeneração da democracia, seria bom que o poder mediático desse mais atenção ao trabalho dos partidos marginalizados pela comunicação social. Três dos estreantes alcançaram inclusivamente presidências de câmara (Nós Cidadãos em Oliveira de Frades, Juntos Pelo Povo em Santa Cruz e LIVRE em coligação com o PS em Felgueiras. JPP, PDR e NC formam ainda parte da mui sui generis coligação com o BE e o PS que ganhou a CM do Funchal).

E uma menção para o crescimento do PAN, que, tendo-se estreado nas Autárquicas há quatro anos, e após eleger um deputado para a AR entretanto, mais do que triplicou a votação em relação a 2013.

*O movimento Juntos Pelo Povo já se tinha candidatado às eleições autárquicas de 2013 na Madeira enquanto grupo de cidadãos eleitores, a formalização enquanto partido aconteceu depois.




29
Set17

O poder do voto e o voto do poder

João Gaspar

Há um argumento bastante comum no apelo ao voto que revela a relação mais ou menos enraízada dos cidadãos com o poder. O «votem em mim porque tenho influência» nas suas diversas variações, desde a proximidade aos centros de decisão, ao poder mediático ou ao partido que governa. É primo afastado do «rouba mas faz». É a assumpção de que não interessa apenas a capacidade de gestão técnica e política no exercício dos mandatos, mas a facilidade com que determinado candidato ou candidata acede aos mitológicos corredores do poder. Traduz o fascínio que muitos cidadãos sentem por aqueles que detêm momentaneamente um cargo político. Ou, mais retorcido ainda, pelos que se movem no seu círculo pessoal e social. O raciocínio: fulano X é amigo de fulano Y que tem muito poder, portanto vai resolver mais facilmente os nossos problemas. Um anquilosamento na democracia, talvez resíduo tóxico dos tempos em que o poder era exercido por um punhado de escolhidos, no sentido não democrático do termo. O poder político confere um status aos que o detêm ou gravitam à sua volta que ainda é visto e/ou usado como motor de ascensão social. Status esse que, obviamente, favorece quem detêm posições sociais e políticas de maior relevo. Num estranho caldo de desconfiança/ fascínio em relação a esse poder político, muitos eleitores parecem preferir quem lhes garanta a ilusão de um acesso ao poder para resolver problemas que pouco têm que ver com a governança da polis. Conhecer fulano X (que, não esqueçamos, conhece fulano Y) ainda é motivo de gabarolice junto de amigos (que não conhecem fulano X) ou de aceitação/ competição entre pares (que conhecem fulanos equivalentes a X). É, no fundo, mais uma dimensão da estranha relação dos cidadãos com o Estado, irmã do muito pouco democrático "dar uma palavrinha" ou "fazer um jeitinho". Não estará longe da lógica que explica a aceitação social da cunha - nos outros é feio mas se der para mim tudo bem. Nem tão-pouco da lógica de "donos da quinta" que muitos eleitos parecem ter com o cargo que ocupam.
Não creio que aconteça, mas fundamentalmente está nas mãos dos eleitores provocar a mudança nesta relação de forças. Em simultâneo com o fascínio pelo poderzinho parece haver um distanciamento na relação eleitor-eleito ou, pelo menos, na relação do eleitor com a responsabilidade no estado de coisas. Como o Daniel Oliveira dizia num texto  recente (cito de memória): somos todos produtores de democracia e não apenas consumidores de democracia. Ou, por outras palavras, temos aquilo que merecemos porque merecemos aquilo que aceitamos.

 

06
Set17

Responsabilização Parlamentar Permanente

David Crisóstomo

 

Depois de ter andado a resmungar, e para ser mais fácil fazer posts deste géneroonde possamos perceber como votaram os nossos representantes democraticamente eleitos, nasceu uma nova casa:

 

 

Hemiciclo

 

 

Usem e abusem.

 

 

 

 

 

 

PS: o valupi é grande.

 

05
Set17

Autárquicas (I)

João Gaspar

Se, parafraseando Ambrose Bierce, a guerra é maneira de ensinar geografia aos americanos, as eleições autárquicas deviam servir para ensinar a geografia de Portugal aos portugueses. Em vez disso, o passatempo nacional colectivo preferido em tempo de campanha eleitoral autárquica parece ser rir de cartazes e slogans.

Não me interpretem mal: Portugal tem mesmo uma toponímia extremamente engraçada. Da Picha até à Coina, da Azia ao Amor, do Rego até à Branca, enfim, a gargalhada, como muitas rotundas, é incontornável. Ainda por cima a Picha fica ali ao pé da Venda da Gaita, não há fuga possível. Não me interpretem pior: eu gosto mesmo muito de me rir de cartazes e slogans. Mas corremos o risco da gargalhada estilo like & share substituir aquela coisa não despicienda numa campanha eleitoral - a política.

Seria interessante que se aproveitasse o embalo do riso para conhecer, pensar e discutir os problemas de um país que vai funcionando a várias velocidades (e muitas vezes em ponto morto). Infelizmente, parece haver uma relação inversamente proporcional entre as gargalhadas provocadas e o real interesse pelos problemas das populações.

A coisa é mais grave quando o riso é condescendente e paternocentralista. Uma rotunda é uma rotunda é uma rotunda, seja no Marquês ou em Carrazeda de Ansiães. Há um país esquecido, que aparece à tona de campanha em campanha, sob a forma de trocadilhos fáceis e cartazes hilariantes partilhados ad nauseum na era das redes dois ponto zero. Passadas as eleições esse portugal volta pró fundo (vêem?, também sei fazer maus trocadilhos), as populações voltam a cair no esquecimento. Quase ninguém partilhará (d)a sua revolta pela falta de transportes, de acessibilidades, de escolas, centros de saúde, de tribunais. A coesão territorial voltará a ser uma entidade mitológica.

PS (salvo seja): isto não invalida a crítica justa ao desespero que, regra geral, a campanha autárquica encerra. Muitas vezes é mais povoada por guerras espúrias pela chave da quinta do que por propostas pelo desenvolvimento e bem estar das populações, e há um esvaziamento da política que só agrava o abandono.

14
Ago17

Alt-PSD

CRG

"We are what we pretend to be, so we must be careful about what we pretend to be."

Kurt Vonnegut

 

No seu discurso no Pontal, Passos Coelho disse que não queria "qualquer um" a viver em Portugal. Nestes tempos mediáticos, por uma questão de precaução e de sanidade mental, sempre que ouço uma afirmação polémica como esta, desconfio. Infelizmente, a declaração de líder do PSD consegue ser ainda pior em contexto.

 

Em primeiro lugar, o seu timing. Este discurso foi proferido num fim de semana marcado por uma sangrenta manifestação nazi nos Estados Unidos. Antes destes acontecimentos, o PSD havia reiterado o seu apoio a um candidato autárquico que proferiu declarações racistas, recebendo o apoio do PNR e o repúdio do CDS.

 

Em segundo lugar, a afirmação completa consegue ainda ser pior. Passos não diz apenas que não quer qualquer um a viver em Portugal, mas que caso isso aconteça o país deixará de ser seguro. Segundo Passos, os estrangeiros, qualquer um deles, são assim uma fonte de insegurança e violência, ao contrário dos portugueses, que são todos cumpridores da lei.

 

Em terceiro lugar, revela um complexo de classe. O primeiro governo liderado por Passos criou o "visto gold", que permitia a entrada no país a qualquer um que tivesse determinado dinheiro para gastar. Presumo que na visão de Passos criminalidade seja incompatível com riqueza.

 

Por outro lado, este discurso xenófobo e nacionalista parece incompatível com os seus discursos anteriores, segundo os quais os portugueses eram uns piegas que viviam acima das suas possibilidades, ao contrário dos exemplares povos do norte da Europa.

 

Passos Coelho nunca teve uma consistência de pensamento ou de ideologia, foi sempre modificando segundo as tendências mais recentes. Ele é uma espécie de Spinal Tap da política, mas pelo menos devia seguir o conselho de Vonnegut e ser mais cuidadoso com o que finge ser.

24
Mai17

The Peelian principles

CRG

Em 11 de maio de 1812, John Bellingham, depois de passar a manhã a escrever cartas e de tarde ter acompanhado a sua senhoria e o seu filho numa visita ao museu europeu em Londres, dirigiu-se a Westminster e aí sentou-se num banco no lobby. Quinze minutos depois chegava ao Parlamento o Primeiro-Ministro inglês, Spencer Perceval. Este foi confrontado no lobby por Bellingham que, com a sua pistola, disparou um tiro contra o peito de Perceval. Enquanto o Primeiro-Ministro morria, Bellingham sentou-se no mesmo banco à espera, explicando calmamente que apenas rectificou uma injustiça do governo.

 

Até àquela altura, não existia um verdadeiro serviço policial em Inglaterra. O assassinato do Primeiro-Ministro inglês levou, entre outras razões, a que fosse criada uma comissão parlamentar para analisar o sistema de segurança pública. Dessa comissão surgiu a Metropolitan Police, erigida sob o modelo de "policing by consent". Neste modelo, os policias são considerados cidadãos em uniforme. Estes exercem o seu poder com o consentimento implícito dos seus co-cidadãos: o seu primeiro dever é com os cidadãos e não com o Estado. Uma das consequências deste modelo é a ausência de policias armados. Numa situação de crise os ingleses souberam reagir com moderação, não trocando os seus princípios por uma falsa sensação de segurança.

 

Pensei neste pedaço de história depois de ler alguns ingleses a defender que deve ser decretado o estado de emergência como ocorre em França. 

03
Mar17

Truques e Baldrocas

CRG

“Illusion, Michael. A trick is something a whore does for money."

G. O. B

 

Este carnaval foi marcado por uma discussão no twitter entre @ostruques e Ricardo Costa, director do Expresso. 

 

Eu não sigo @ostruques. Do que li, não gostei do seu tom conspirativo e acusatório. Ao contrário do que afirma o camarada Arnaldo Matos "isto não é tudo um putedo" e os jornalistas - quase todos - não fazem truques por dinheiro. Na sua maior parte, as noticias que vi destacadas são fruto de lapsos, incompetência ou, ainda mais interessante, viéses cognitivos. Estes resultam, em parte, da cultura dominante - das respectivas normas, valores e preconceitos - caracteristicos de um determinado período e transparecem no uso de determinadas palavras, no tom ou mesmo na construção da notícia (por exemplo: a forma como é noticiada uma estatística pode resultar em diferentes interpretações). Deste modo, os principais prejudicados ao longo da história são sempre os que normalmente não têm voz: as classes desfavorecidas, as populações das regiões mais remotas, as minorias, etc. Em Portugal, os media centrados nos grandes centros urbanos, em especial na capital, com jornalistas de classe média, habituados a conviver com as elites, acabam, como é natural, por exacerbar esta tendência. No entanto, não é por não gostar dos Truques que considero que estes devam ser proibidos ou que o seu anonimato deve ser impeditivo de apresentaram críticas, desde que dentro dos limites legais.  

 

Ora, a resposta do director do Expresso aos Truques e a quem, devidamente identificado (enfim), criticou o seu jornal e colunistas, foi inadequada, desproporcional e insultuosa. Os Truques não são os KKK. Quem critica jornalistas ou colunistas não é fascistas ou reencarnação de Marcello Caetano, nem pretende acabar com a liberdade de imprensa. O simples facto de ter que explicar algo tão óbvio demonstra como a reacção de Ricardo Costa foi longe demais. E este não ficou por aqui, disse ainda mais duas coisas interessantes.

 

A primeira: os jornalistas lêem os Truques de cócoras. Se uma página no facebook e uma conta no twitter de anónimos conseguem amedrontar uma redacção, receio que o estado do jornalismo está bastante pior do que se imaginava. Como vão noticiar entidades com verdadeiro poder como um grupo financeiro, um empresa ou políticos?

 

A segunda: quem não lê jornais acaba a votar em Trump. Apenas posso falar por mim, mas, com ou sem jornais, nunca votaria em Trump. O que sei é se apenas lesse o Expresso e visse a SIC, teria acreditado que receberia a devolução da sobretaxa do IRS e que o BES era sólido, entre outras manchetes que depois não se vieram a confirmar. Todos se enganam, jornais incluídos. A soberba dos jornalistas como detentores da única verdade é o que, em parte, permitiu a propagação das FakeNews. Estas são difundidas e construídas como noticias por uma razão: durante anos foi criada uma audiência acrítica dos media – “eu li no jornal" era sinónimo de verdade.

 

Acima de tudo, o público merece ser tratado com respeito, como cidadãos inteligentes capazes de pensar por si, com sentido crítico. Estes também estão descontentes com a degradação dos media e com as FakeNews. E de forma a responder a estas preocupações poder-se-ia, por exemplo, criar um sistema de fact-checking dos colunistas, obrigando a que estes documentem perante o jornal todos os factos que alegam, e que um editor confirme essa documentação, como acontece no NY Times*. Infelizmente é mais fácil e barato recorrer ao argumento " ad fascinium".

 

 

*Now, I don’t expect a publication that responds to daily or weekly news to do New Yorker-style fact checking. But it should demand that anyone who writes for it document all of his or her factual assertions – and an editor should check that documentation to see that it actually matches what the writer says.

That’s how it works at the Times, or at least how it works for me. I supply a list of sources with each column submission; for yesterday’s piece it looked like this:

$4.3 trillion: http://www.taxpolicycenter.org/numbers/displayatab.cfm?Docid=3301&DocTypeID=5 lines 2, 3 and 5

Ryan cuts: http://www.cbpp.org/cms/index.cfm?fa=view&id=3723 (I count his Medicaid cuts relative to current policy, not policy including Obamacare)

Disproportionate benefits at top: http://www.taxpolicycenter.org/numbers/displayatab.cfm?Docid=3337&DocTypeID=2

Ryan award: http://www.thefiscys.com/content/sen-kent-conrad-rep-paul-ryan-and-gov-mitch-daniels-named-2011-fiscy-award-recipients

Baseline: http://www.latimes.com/news/nationworld/nation/la-na-ryan-20120817,0,1246452.story

Each time I send in a column draft, the copy editor runs quickly through the citations, making sure that they match what I assert. Sometimes the editor feels that I go further than the source material actually justifies; in that case we either negotiate a rewording, or drop the assertion altogether. Oh, and weasel-wording isn’t acceptable – implying something the facts don’t support is no more OK than stating it outright.

And despite all this, sometimes an error slips through. In that case, the response is a print correction.

Paul Krugman

 

«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.»
- Ortega y Gasset

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