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01
Set

Segundo a manchete do Expresso do passado Sábado "60% do emprego é criado pelo Estado", designadamente através do programa Estágio Emprego que paga entre 419,22 e 691,70 euros, acrescidos de subsídio de refeição, consoante as qualificações, sendo que as entidades empregadoras recebem uma comparticipação pública que é genericamente de 100%, desde que verificados alguns requisitos, ou de 80%.

 

Verifica-se uma espécie de regresso ao sistema Speenhamland, vigente no Reino Unido na passagem do século XIX, segundo o qual o vencimento dos trabalhadores era complementado através de dinheiros públicos de forma a atingir o valor mínimo de subsistência, de acordo com o preço do pão. Este sistema bem intencionado acabou por não ter os efeitos desejados: pauperização da população trabalhadora por conta doutrem uma vez que as empresas eram incentivadas a praticar salários abaixo do normal, aumentado os seus lucros.

 

Programas como o Estágio Emprego não são por si só criticáveis. Aliás perante uma taxa de desemprego tão elevada eram imprescindíveis e urgentes políticas públicas de criação de emprego, tanto mais que há uma correlação entre o tempo de desemprego e a dificuldade em ser contratado.

 

No entanto, esta afectação de recursos públicos em beneficio das empresas é revelador no contexto actual (reforma do IRC, a redução de feriados, as alterações à legislação laboral) de uma tendência: alteração das relações de poder na sociedade em detrimento do trabalho. 

 

Esta parcialidade de tratamento num Governo, que sempre defendeu a saída do Estado da Economia, é notório no seu próprio discurso. Qualquer subsídio dirigido a individuais é visto como uma perigosa esmola que aumentará a sua dependência enquanto que se dirigido a empresas é fomentador de crescimento económico.

 

Passados dois séculos desde o Sistema Speenhamland há quem continue a caber na descrição da burguesia daquela altura: "rigid, self-righteous, unintellectual, obsessed with puritan morality to the point where hypocrisy was its automatic companion".  

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30
Ago

Lamacento

por David Crisóstomo

 

 

Habituem-se, que isto mudou”. Mudou, mudou para isto.

António José Seguro decidiu deixar de se anular. Após 3 anos de liderança, tinha chegado a altura de se revelar à população. De revelar o que lhe vai na alma, no espírito, de deixar de se ocultar, de deixar de fingir ser o que não era. Descobrimos que andámos a ouvir um António José Seguro em versão anulada, fingida, contida, falsa. Tínhamos um Secretário-Geral que, aparentemente, em privado era uma pessoa e em público anulava-se para se tornar naquilo a que assistimos. Aquilo que no último escrutínio eleitoral apenas conseguiu levar o seu partido a pouco mais de 30% dos votos, era um Seguro falseado. Após perceber que havia alguém que em público se tinha oferecido para levar o Partido Socialista para uma outra direcção, António José Seguro avisou-nos: agora verão aquilo que verdadeiramente elegeram. Os portugueses iam finalmente conhecer o homem que inúmeras vezes repetia: "Os portugueses conhecem-me".

Saiu-nos isto. Saiu-nos alguém que, quando desafiado para uma disputa interna e eleitoral, indigna-se, repete que "não merecia", que merecia sim, por tanto se ter anulado, ser ele o próximo primeiro-ministro. Que não, não ia sair, não há diretas nem congresso, do Palácio Praia ninguém o tirará. Ao perceber a quantidade de camaradas que estariam a optar por apoiar quem oferecia uma nova visão para o PS, arranjou uma maneira de empatar: criam-se primárias, põe-se de repente todo o país a votar. Ao ganhar noção que uma grande parte do país estaria disposto a votar no seu camarada, não hesitou e, no seu "verdadeiro eu", revelou-se. Revelou o que achava de António Costa e dos que o apoiavam, revelou que achava que os interesses, o tal "partido invisivel" que ele sempre viu, o clã dos corruptos, estava com o presidente da câmara de Lisboa. Ele era puro, ele era contra os a "corte iluminada de Lisboa", contra os "negócios", ele cumpria sempre o que prometia, ele não roubou, com ele podiam contar para tudo e para todo o sempre. Já o outro, não queria debates, tinha medo, queria "o poder" dele, era um "assalto ao poder". Era tudo contra ele. Ele que "trouxe o Partido Socialista da lama cá pra cima".

Mudou para isto, para um populista que para se manter num cargo não hesita em insultar, em difamar os que dele discordam. Que não hesita em envergonhar os seus camaradas, em insinuar o quão uliginoso era alegadamente o seu partido antes da sua salvífica chegada.

 

Nunca o Partido Socialista nos seus 41 anos de existência esteve na "lama". O que infelizmente não significa que não haja quem, mesmo internamente, tente de tudo para conspurcar a sua história. 

 

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29
Ago

Iluminada vizinhança

por David Crisóstomo

"Este é um espaço que as cortes de Portugal reservam para lançar alguma luz sobre o percurso e obra de António José Seguro."

 

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Quem oiça Seguro falar nos últimos dias pode até não acreditar que em 2011 se realizaram dois debates entre Assis e Seguro cuja transmissão na comunicação social não foi autorizada por António José Seguro.

"Por mim, já tínhamos feito vários debates" disse Seguro ontem. Vários, note-se. O candidato que em 2011 colocou todos os entraves possíveis e imagináveis não só à realização de debates como à transmissão de debates acordados.

 

Os debates eram para Seguro em 2011 uma disputa que projectava uma má imagem do partido e tinham que ser resguardados do espaço público. Na eleição para Secretário-Geral de 2011 houve apenas um único debate transmitido pela comunicação social. Segundo Seguro e a sua campanha, o candidato atribuía prioridade ao contacto com os militantes.

 

Mais, houve dois debates acordados para serem realizados com militantes em espaços nos dois principais distritos. A candidatura de Assis propôs que se permitisse a difusão dos debates na comunicação social. Na altura, Seguro não tinha ainda desenvolvido esta paixão pelo esclarecimento dos votantes através de debates no espaço mediático e não permitiu a sua transmissão.

 

Foram contabilizados pela candidatura de Assis 14 debates 14 propostos pela comunicação social. Todos eles foram aceites pela candidatura de Francisco Assis sendo que Seguro acabou por apenas viabilizar um deles.

 

Seguro pode ficar descansado que irão realizar-se os três debates previstos no regulamento eleitoral. Ninguém colocará os obstáculos que ele colocou em 2011.

 

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27
Ago

Elevador social

por CRG

Imaginemos um elevador num prédio (que para o caso segue a tradição romana dos residentes nos andares superiores serem os mais pobres). Este é um serviço essencial cujo encargo é dividido pelos condóminos segundo a permilagem da sua fracção autónoma, ou seja, de acordo com a percentagem de riqueza que cada um detém.

 

No entanto, os residentes do rés-do-chão alegam, e com uma certa razão, que não devem suportar os encargos com o elevador ou que o encargo deve ser proporcional ao andar que cada um ocupa, correspondente ao uso que fazem. 

 

Em virtude desta pressão ocorre uma alteração: os que usufruem do elevador pagam pelo seu serviço enquanto que os que conseguem atingir o seu andar pelos seus próprios meios deixam de contribuir. Esta mudança resulta num acréscimo de despesa para os condóminos dos andares superiores e na isenção de pagamento dos condóminos dos andares inferiores (que correspondem respectivamente aos condóminos mais pobres e mais ricos).

 

Assim, por um lado deixa de existir a redistribuição de rendimentos para o pagamento de bens essenciais, por outro acrescenta-se uma maior complexidade no seu pagamento, que nuns casos pode obrigar a que gestão do condomínio considere que não faz parte da sua função gerir algo que é usado por apenas uma parte dos seus membros.

 

Ao mesmo tempo as tarifas cobradas serão insuficientes para a manutenção ou investimento num novo elevador, as avarias irão multiplicar-se e o serviço piorar.

 

Passo seguinte: venda do serviço de elevador.

 

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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O David já aqui tinha perguntado. Alguém sabe onde pára a proposta de reforma da lei eleitoral prometida em 2012? É que, no contexto da "nova forma de fazer política" e lembrando que Seguro "só promete o que pode cumprir", ficamos sem saber se nos escapou alguma coisa ou se, de facto, estes anúncios são instrumentais... na "nova forma de fazer política."

Sem esquecer já agora e como diz o David que quem defende "exigência da prestação de contas" poderia começar por explicar o que aconteceu a esta proposta de 2012.

 

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26
Ago

Friends in low places*

por mariana pessoa

Vem o vento, sobram toalhas de praia e a pedra deixou de estar quente. Horas antes, uma inusitada bissectriz de ângulos entre espelhos, paredes de pé alto e tectos de estuque alvo trabalhado. Surge um “dás-me um abraço?” como quem diz boa noite. Segurou-lhe no copo como passe de mágica, o braço longo em camisa azul petróleo. Sentiu-lhe a pele, a cara áspera, talvez barba se a luz destes sítios desse para ver mais que penumbra. “Um abraço, então”, como rascunho de um abraço que não se nega. E ficaram-se no abraço. Uma mão sobe à nuca e sente-lhe o fim do cabelo bem cortado. E ficaram-se no abraço. Corpos colados. Mão acima da anca, um puxar de braço a título de convite de fuga, mas ficaram-se num outro abraço. Depois – 3 segundos ou 3 horas depois, não sabe - virou as costas dizendo-lhe ao ouvido que fosse à vida dele.

 

Veio o vento, sobraram as toalhas e a pedra voltou a estar quente. Não tinha sido obediente e não tinha ido à vida dele. Há oceanos para parar, deste lado e parece que daquele, atiçados por braços que comandam marés. A falta de sincronia com quem não se conhece, o ar adolescente do olhar para o chão quando não se sabe para onde olhar (olhos nem pensar). O tempo passa, já há sombras que se vão morrendo, antes elas que eu, que há vazios para preencher e eu não quero morrer mais desta maneira, pelo menos hoje. Há um lado que faz querer fugir, afinal pára tudo, voltar à zona de conforto, põe-te nas putas. (Não sejas menina, é só carne. Bebe mais se for preciso). Abdicar dela própria, chegar ao ponto em que dá sem nunca se dar, isso exige tempo e, malogradamente, experiência. Evitam-se palavras preenchendo a boca do outro com movimentos convictos, a resposta surda é imediata e afinal os Depeche Mode tinham razão: words are very unnecessary, they can only do harm.

 

Onde estás amanhã?, amanhã vou de férias; Dá-me o teu número, dou se não me telefonares; então é porque tens alguém, se tivesse não estaria aqui contigo (pausa para olhar à volta e não esconder o ar insultado). Liga-me. És um idiota, sorriso, um beijo. E outro.

 

Ainda não sei conversar contigo, como se faz? Acende-lhe um cigarro. Deitados, voltou-lhe as costas, num modo muito repetido de falsa auto-confiança, como se estivesse muito habituada a derramar existência nos braços de quem não conhece. Não estou aqui para te fazer mal, sabes? Então podes ir embora, gargalhadas metálicas primeiro em mono e depois em stereo, sem candura nem inocência, afinal o desígnio foi cumprido. Não há sentido, houve sentidos. Já tinha reparado no colar dele, mas só agora resolveu contemplá-lo. Era feito de elementos tão vulgares como algo que parecia fio norte e uma medalha redonda em ferro escurecido, com desenhos imperceptíveis, gastos. Ah, os acasos. Novo nome para isto, face à ambígua e despropositada necessidade de dar nomes às coisas: friends in low places.

 

*Simon Raven - Friends in low places (1965)

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26
Ago

- Isto está complicado.

- O quê, stôra?

- A execução, Pedrinho. Não vamos lá, a este ritmo. E com o TC a chumbar as nossas medidas, ainda menos.

- Aqueles cabrões...

- Pois é, Pedrinho. Não diga palavrões.

- Ó stôra, e que fazemos? Não podemos aumentar os impostos, que já só falta um ano para as eleições e ainda quero ganhar esta merda.

- Não diga palavrões. Acho que só nos resta aumentar impostos. Temos aquela coisa da almofada orçamental, mas combinámos que isso é apenas para gastar em 2015, mesmo em cima das eleições.

- Sim, e não podemos esquecer o dinheiro que ainda vai para o BES, pelo menos até às próximas eleições.

- Isso já está de parte. Desde que continuemos a ter alguma coisinha para pagar os juros, tudo bem. Foi para isso que introduzimos a contribuição no IRS, lembra-se, Pedrinho?

- Pois é, pois é, stôra. Já me esquecia disso. Se calhar devia ter feito mais do que copiar na cadeira de Finanças Públicas...

- Lá isso tinha feito bem, Pedrinho. Mas agora não interessa nada. O Pedrinho até tem-se portado bem, sempre foi bom a fingir ser uma coisa que não é...

- Obrigado, stôra. Só o sacana do La Féria não percebeu a minha verdadeira vocação.

- Deixe lá isso, menino, que o seu pai está muito orgulhoso de si. E eu também. Mas adiante. Temos mesmo de aumentar impostos, não há outra maneira. Mesmo que cortemos nos hospitais, nas escolas e nas prestações sociais, continua a faltar dinheiro.

- Isso não pode ser, que o outro não quer ficar mal visto e perder o resto do eleitorado que lhe resta. Se a prima-dona arma mais uma fita, o senhor presidente passa-se de vez e ainda aceita a demissão, de forma completamente irrevogável.

- Invente lá qualquer coisa então, para disfarçar. Telefone aí ao Miguel, quer dizer, a um dos dois: se o Relvas não atender (ainda está amuado consigo), pergunte ao Maduro, que ele até sabe umas coisas.

- Ah, bem pensado, stôra. 

 

(...)

 

- Estou, Miguel?

(...)

- Sim, sou eu, o Pedro.

(...)

- Epá, não desligues, caraças, estou aqui num aperto.

(...)

- Já te pedi desculpa, pá. Sabes muito bem que tinha mesmo de ser, estavas a queimar tudo.

(...)

- Não digas isso, pá, eu encaminho uns quantos clientes para a tua nova empresa. É uma mina, sabes bem, melhor do que a Tecnoforma.

(...)

Ah, é assim? Eu ligo ao outro Miguel, juro.

(...)

(...)

(...)

 

- Ora, foda-se.

- Então, Pedrinho, o Miguel não o ajuda?

- Continua chateado. Criancices. Vou ligar ao outro Miguel.

 

(...)

 

- Estou, Miguel?

(...)

- Pedro? Pedro quem? Não conheço nenhum Pedro?

(...)

- Lomba? Está numa lomba? Realmente não o estou a ouvir muito bem... ouça lá, não sei quem é, mas o seu trabalho é passar-me a chamada. Não está aí o senhor ministro?

(...)

 - Secretário? De Estado? E fui eu quem o nomeou? Não me lembro... olhe, isso agora não interessa nada, passe-me aí o senhor ministro.

(...)

- Estou? Miguel? Aqui fala o Pedro. Ouça lá, olhe que o seu secretário tem de ser mais diligente a passar as chamadas.

(...)

- Ele não é assim tão novo, já está há alguns meses aí no gabinete. Não lhe deu o manual de formação para secretários de Estado? Aquele em 12 passos? Olhe que o Moedas aprendeu por aí, e veja lá onde ele já está...

(...)

- Ora, bem, se ele tem esse problema, deixe estar. Sempre cumpre a cota dos deficientes. Mas liguei-lhe para falar de outra coisa.

(...)

- Não, não é isso, deixe lá a RTP em paz que eles agora estão a fazer um bom serviço. Não aprendeu com o outro Miguel? O que eu preciso é de uma manobra de diversão para distrair as pessoas. Estamos à rasca com a execução orçamental.

(...)

- Sim, precisamos de cortar ou aumentar os impostos.

(...)

- Outra vez isso? É sempre a mesma coisa. Não consegue fazer outra coisa se não lançar notícias que se vêm a revelar falsas? Já o outro Miguel fazia isso.

(...)

- Bom, deixe lá, homem, não fique ofendido. Então qual é o plano?

(...)

- Sim, ah, essa é uma variante interessante. Está a ver, Miguel, sempre temos alguma imaginação, colega. Então, vamos lá ver se eu percebi bem: dizemos ao Luizinho para lanças umas balelas sobre aumento de impostos na TV, certo? Depois eu nego veementemente, e tal, dizendo que este ano, não. Depois, esperamos que saiam as notícias falando dos inevitáveis cortes na Saúde e na Educação, culpando o Tribunal Constitucional, é isso?

(...)

- Ah, bom toque final. Se falarmos também da justiça as pessoas compreendem melhor. Olham para o lado, e como de qualquer maneira acham que os juízes são uns chupistas, ainda entalamos os cabrões do TC.

(...)

- Epá, não seja fino, eu digo os palavrões que me apetecer, eu é que sou o primeiro-ministro. Olhe, até logo, vou já ligar ao irrevogável, antes que ele faça uma birra ou ligue ao arquitecto do jornal a lançar a confusão. Mãos à obra!

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24
Ago

Read my lips

por Pedro Figueiredo

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22
Ago

A frase do ano

por Diogo Moreira
"Eu não compro votos, nem ressuscito mortos".

- António Costa

http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/22-08-2014/caderno-1/temas-principais/03_TP-Antonio-Costa

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«As circunstâncias são o dilema sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso carácter.» Ortega y Gasset