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24
Mai

Em 11 de maio de 1812, John Bellingham, depois de passar a manhã a escrever cartas e de tarde ter acompanhado a sua senhoria e o seu filho numa visita ao museu europeu em Londres, dirigiu-se a Westminster e aí sentou-se num banco no lobby. Quinze minutos depois chegava ao Parlamento o Primeiro-Ministro inglês, Spencer Perceval. Este foi confrontado no lobby por Bellingham que, com a sua pistola, disparou um tiro contra o peito de Perceval. Enquanto o Primeiro-Ministro morria, Bellingham sentou-se no mesmo banco à espera, explicando calmamente que apenas rectificou uma injustiça do governo.

 

Até àquela altura, não existia um verdadeiro serviço policial em Inglaterra. O assassinato do Primeiro-Ministro inglês levou, entre outras razões, a que fosse criada uma comissão parlamentar para analisar o sistema de segurança pública. Dessa comissão surgiu a Metropolitan Police, erigida sob o modelo de "policing by consent". Neste modelo, os policias são considerados cidadãos em uniforme. Estes exercem o seu poder com o consentimento implícito dos seus co-cidadãos: o seu primeiro dever é com os cidadãos e não com o Estado. Uma das consequências deste modelo é a ausência de policias armados. Numa situação de crise os ingleses souberam reagir com moderação, não trocando os seus princípios por uma falsa sensação de segurança.

 

Pensei neste pedaço de história depois de ler alguns ingleses a defender que deve ser decretado o estado de emergência como ocorre em França. 

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03
Mar

“Illusion, Michael. A trick is something a whore does for money."

G. O. B

 

Este carnaval foi marcado por uma discussão no twitter entre @ostruques e Ricardo Costa, director do Expresso. 

 

Eu não sigo @ostruques. Do que li, não gostei do seu tom conspirativo e acusatório. Ao contrário do que afirma o camarada Arnaldo Matos "isto não é tudo um putedo" e os jornalistas - quase todos - não fazem truques por dinheiro. Na sua maior parte, as noticias que vi destacadas são fruto de lapsos, incompetência ou, ainda mais interessante, viéses cognitivos. Estes resultam, em parte, da cultura dominante - das respectivas normas, valores e preconceitos - caracteristicos de um determinado período e transparecem no uso de determinadas palavras, no tom ou mesmo na construção da notícia (por exemplo: a forma como é noticiada uma estatística pode resultar em diferentes interpretações). Deste modo, os principais prejudicados ao longo da história são sempre os que normalmente não têm voz: as classes desfavorecidas, as populações das regiões mais remotas, as minorias, etc. Em Portugal, os media centrados nos grandes centros urbanos, em especial na capital, com jornalistas de classe média, habituados a conviver com as elites, acabam, como é natural, por exacerbar esta tendência. No entanto, não é por não gostar dos Truques que considero que estes devam ser proibidos ou que o seu anonimato deve ser impeditivo de apresentaram críticas, desde que dentro dos limites legais.  

 

Ora, a resposta do director do Expresso aos Truques e a quem, devidamente identificado (enfim), criticou o seu jornal e colunistas, foi inadequada, desproporcional e insultuosa. Os Truques não são os KKK. Quem critica jornalistas ou colunistas não é fascistas ou reencarnação de Marcello Caetano, nem pretende acabar com a liberdade de imprensa. O simples facto de ter que explicar algo tão óbvio demonstra como a reacção de Ricardo Costa foi longe demais. E este não ficou por aqui, disse ainda mais duas coisas interessantes.

 

A primeira: os jornalistas lêem os Truques de cócoras. Se uma página no facebook e uma conta no twitter de anónimos conseguem amedrontar uma redacção, receio que o estado do jornalismo está bastante pior do que se imaginava. Como vão noticiar entidades com verdadeiro poder como um grupo financeiro, um empresa ou políticos?

 

A segunda: quem não lê jornais acaba a votar em Trump. Apenas posso falar por mim, mas, com ou sem jornais, nunca votaria em Trump. O que sei é se apenas lesse o Expresso e visse a SIC, teria acreditado que receberia a devolução da sobretaxa do IRS e que o BES era sólido, entre outras manchetes que depois não se vieram a confirmar. Todos se enganam, jornais incluídos. A soberba dos jornalistas como detentores da única verdade é o que, em parte, permitiu a propagação das FakeNews. Estas são difundidas e construídas como noticias por uma razão: durante anos foi criada uma audiência acrítica dos media – “eu li no jornal" era sinónimo de verdade.

 

Acima de tudo, o público merece ser tratado com respeito, como cidadãos inteligentes capazes de pensar por si, com sentido crítico. Estes também estão descontentes com a degradação dos media e com as FakeNews. E de forma a responder a estas preocupações poder-se-ia, por exemplo, criar um sistema de fact-checking dos colunistas, obrigando a que estes documentem perante o jornal todos os factos que alegam, e que um editor confirme essa documentação, como acontece no NY Times*. Infelizmente é mais fácil e barato recorrer ao argumento " ad fascinium".

 

 

*Now, I don’t expect a publication that responds to daily or weekly news to do New Yorker-style fact checking. But it should demand that anyone who writes for it document all of his or her factual assertions – and an editor should check that documentation to see that it actually matches what the writer says.

That’s how it works at the Times, or at least how it works for me. I supply a list of sources with each column submission; for yesterday’s piece it looked like this:

$4.3 trillion: http://www.taxpolicycenter.org/numbers/displayatab.cfm?Docid=3301&DocTypeID=5 lines 2, 3 and 5

Ryan cuts: http://www.cbpp.org/cms/index.cfm?fa=view&id=3723 (I count his Medicaid cuts relative to current policy, not policy including Obamacare)

Disproportionate benefits at top: http://www.taxpolicycenter.org/numbers/displayatab.cfm?Docid=3337&DocTypeID=2

Ryan award: http://www.thefiscys.com/content/sen-kent-conrad-rep-paul-ryan-and-gov-mitch-daniels-named-2011-fiscy-award-recipients

Baseline: http://www.latimes.com/news/nationworld/nation/la-na-ryan-20120817,0,1246452.story

Each time I send in a column draft, the copy editor runs quickly through the citations, making sure that they match what I assert. Sometimes the editor feels that I go further than the source material actually justifies; in that case we either negotiate a rewording, or drop the assertion altogether. Oh, and weasel-wording isn’t acceptable – implying something the facts don’t support is no more OK than stating it outright.

And despite all this, sometimes an error slips through. In that case, the response is a print correction.

Paul Krugman

 

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24
Fev

A TINA MORREU

por João Gaspar

A grande lição que as legislativas de 2015 nos deram foi a de que em democracia há sempre - sempre - alternativa. Apesar do discurso vigente durante quatro anos, das imposições para além da troika, dos assaltos aos salários e pensões, dos ataques à constituição, dos excel do Gaspar e das trafulhices da Albuquerque, das heranças que são sempre pesadas, apesar da relutância do Cavaco em dar posse a um governo apoiado por comunistas, apesar do estertor do cavaquismo e do passoscoelhismo, apesar do quem é que paga, do não há dinheiro, do tem de ser, apesar disso tudo, afinal havia outra. 


A ausência de alternativa é a negação da democracia. A TINA foi morrendo aos poucos: primeiro a maioria de esquerda, depois o acordo parlamentar, a formação do governo e a estocada final da aprovação do orçamento no princípio de 2016. A alternativa nasceu e vai funcionando. O país está como está, as pessoas estão melhores. Passado mais de um ano já é oficial - saiu um obituário no Washington Post e tudo - a TINA morreu. Façamos-lhe um funeral digno, para que não nos esqueçamos que a TINA é o braço armado em parvo dos autocratas, perigosa aliada do limbo entre o eles são todos iguais e o não vale a pena votar.

 

E que se enterre de vez o discurso de que não há alternativa. Mesmo que algum dia seja a esquerda (cruzes, canhoto) a querer fazê-lo.

 

 

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Factos alternativos. Pós-verdade. Pós-facto. Diferentes nomes para algo que todos os políticos usaram ao longo dos tempos: propaganda. Os regimes democráticos usam-na, os totalitários também. Mas a propaganda dos nossos tempos tem outro rosto, mais feio, mais perigoso. A derrocada dos media tradicionais e a ascensão das redes sociais e dos media alternativos, on-line, levou a que o mundo se enchesse de um ruído de tal forma ensurdecedor que qualquer pessoa se perde facilmente num caudal lamacento onde verdade e mentira se misturam de forma quase indistinguível. Não se trata de um processo amoral, de progressiva substituição da verdade pela mentira, o que costuma acontecer com a propaganda tradicional dos regimes totalitários: o Estado substitui a realidade por uma realidade alternativa, a verdade pela mentira, e os cidadãos apenas têm acesso à narrativa oficial do regime. No mundo pós-facto, toda a gente tem acesso a todas as narrativas, mas não consegue separar o que é falso do que é verdadeiro. Do ponto de vista da ética, as categorias “verdade” e “mentira”, que podemos classificar como duas faces da mesma moeda (a primeira é um valor “positivo” e a segunda um valor “negativo”), deixaram de existir, foram abolidas. Não absolutamente, claro: o bem e o mal ainda existem como valores éticos, simplesmente torna-se muito difícil catalogar a informação que recebemos, classificá-la correctamente de acordo com os princípios universais que regem o comportamento humano.

O livro 1984 trepou aos primeiros lugares dos tops depois da tomada de posse de Trump. Mas a obra de George Orwell não explica totalmente o fenómeno. Trump não é o “Grande Irmão”, o ditador invisível que controla o fluxo de informação através da linguagem, moldando a realidade definindo o valor das palavras, mas é o oportunista, o “con man”, surfando uma corrente reaccionária que surgiu na última década, uma força de combate aos avanços progressistas que transformaram o mundo ocidental, as conquistas sociais e culturais de minorias que foram criando o ressentimento na maioria. A maioria que olha para os direitos das minorias como uma ameaça ao status quo e que assistiu a cada nova lei que estabeleceu igualdade de direitos com perplexidade, encarando-a como uma inadmissível perda de poder. O combate ao “politicamente correcto”, bandeira do Tea Party e depois do movimento neonazi “alt-right”, não é mais do que um eufemismo (newspeak) para um avassalador movimento de reacção, conservador, uma tentativa de regresso ao que o mundo que existia antes das conquistas sociais das últimas décadas.

O movimento alt-right vai mesmo longe do que o Tea Party. Este era conservador na sua dinâmica e incorporava facções do Partido Republicano que estavam descontentes com o deslocamento do GOP para o centro. Os alt-right são revolucionários na sua essência (e isto não é contraditório com a essência reaccionária das suas ideias), pretendendo corroer por dentro o sistema até que voltem a ser estabelecidos os valores conservadores que o avanço progressista minou. Partem das margens onde permaneceram durante décadas (as principais figuras do movimento estiveram na sua juventude ligados a movimentos supremacistas brancos, como o Ku Klux Klan) em direcção ao centro. Encontraram em Trump o meio para chegar ao poder e implementar a sua agenda racista, xenófoba e racista. Voltando um pouco atrás: apesar da natureza revolucionária (têm isto em comum com o Partido Nazi original) da sua estratégia de chegada ao poder, o seu objectivo final é o regresso a um mundo que já não existe, quando os WASP e os seus valores de raiz puritana (white anglo-saxon protestants) dominavam a América. Make America great again.

O site Breitbart (e outros da mesma natureza), fonte de notícias falsas, exageros retóricos, propaganda anti-islâmica e xenófoba, impulsionou a tomada de poder disseminando pelas redes sociais durante os últimos anos os “factos alternativos” que foram alimentando a paranóia e o medo que sustentaram a vitória de Trump nas eleições. Esta força não seria suficiente para a tomada de poder. Mas Trump foi o veículo ideal para o processo. O seu oportunismo e a sua maleabilidade moral permitiram que todos os temas que preocupavam as franjas mais desfavorecidas da sociedade americana fossem incorporados nos seus discursos e na sua proposta eleitoral. Falou directamente para os brancos despojados de poder durante os anos de crise, proletários que acreditavam no sonho americano e que não tinham conseguido recuperar do descalabro económico pós-2008. Um populista alimenta-se das fraquezas da sistema que parasita do mesmo modo que uma infecção prospera mais facilmente num organismo debilitado. Menosprezado pela elite norte-americana, Trump aproveitou-se dos medos e do “disempowerment” dos WASPs para concretizar o seu sonho narcisista de bully nascido em berço de ouro. Não é acaso, e a ascensão de movimentos neonazis por todo o mundo é prova disso mesmo. Estamos a viver os tempos mais sombrios desde a Segunda Guerra Mundial.

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“The Emperor Nero has now taken power in Washington — and the British are having to smile and clap as he sets fires and reaches for his fiddle.” (FT’s Gideon Rachman)

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Donald Trump parece ter conseguido, sem grandes dificuldades, dividir a UE na resposta à sua proibição de entrada nos EUA para as pessoas originárias da chamada “lista de ameaças”. As novas regras parecem aplicar-se mesmo a quem desse grupo seja detentor de passaporte da União Europeia, exceptuando os detentores de passaportes britânicos.



É o Reino Unido, e já estão de saída, por isso já não contam muito para a dita “solidariedade europeia”. Mas fica-me a questão na cabeça: Se os EUA decidirem isentar outros estados-membros da UE desta proibição de entrada, os referidos países deverão aceitar essa isenção, defendendo assim o interesse concreto dos seus cidadãos? Ou deverão permanecer unidos com os restantes membros da UE, procurando apenas uma solução conjunta, de forma a pressionar os EUA?



São tempos mesmo interessantes.

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17
Jan
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Do aguardado discurso de hoje de Theresa May, primeira-ministra britânica, sobre o seu plano de sair da União Europeia resultaram poucas novidades. A que teve mais impacto foi a confirmação que o Reino Unido terá uma “saída dura” da UE, isto é não tem interesse em permanecer no mercado comum europeu, ou na própria união alfandegária, o que significa, na prática, que a capacidade que a União teria de influenciar o Reino Unido em continuar a manter a livre circulação de pessoas entre a UE e o Reino Unido já não existe. O Reino Unido abdicou do livre acesso dos seus bens e serviços ao mercado europeu, para poder controlar o acesso dos europeus ao seu território. É uma escolha democrática e legítima, por muito que seja um retrocesso gigantesco no próprio processo de integração europeu.



Não haverá livre circulação de cidadãos europeus no Reino Unido, o que significa, por simples reciprocidade, que não haverá livre circulação de britânicos no espaço europeu. Isto é já um dado adquirido. É bom que os eurocratas, e os euro-entusiastas, de uma vez por todas metam isso nas suas cabeças. Porque, ao contrário do que muitos têm dito, a possibilidade desta saída ser conflituosa reside muito mais no lado europeu, que no britânico. As linha-mestras da posição britânica foram hoje expostas: eles vão sair, eles não querem a livre-circulação de pessoas, querem um acordo de comércio-livre com a UE, vão parar com as contribuições para o orçamento da UE, não mais os tribunais europeus terão jurisdição no seu território, e estão dispostos a continuar as parcerias militares, de justiça e segurança interna.



Com a ressalva da questão irlandesa, onde o Reino Unido parece querer manter a livre-circulação entre cidadãos da Irlanda e da Irlanda do Norte, o que nos pode parecer um aspecto em que talvez seja necessário uma excepção das regras europeias, de forma a manter a paz na Irlanda, algo que é do interesse absoluto de todas as partes, estas linhas-mestras são aceitáveis e servem bem para determinar o que quer o Reino Unido.



Mas o que quer a UE nesta negociação? Parece haver em vários sectores europeus a ideia de que o “Brexit” poderá ser ainda travado, e que um dos factores que poderia ajudar a esse objectivo, seria uma negociação com tais resultados negativos, que o parlamento britânico seria obrigado a rejeitá-lo, abrindo assim caminho a que os britânicos poderiam reconsiderar a saída da União. Outra linha de raciocínio é a chamada “negociação punitiva”, em que os resultados do “Brexit” teriam de ser de tal forma negativos para o Reino Unido, que servisse como “vacina” para a população de outros estados-membros que pudessem ter a leviandade de seguir o caminho de sair da União.



Ambas estas perspectivas, se influenciarem a negociação do lado europeu, irão aumentar grandemente a possibilidade de não haver um acordo real entre as partes. E como Theresa May já disse neste discurso, se a alternativa for entre um mau acordo, e um não-acordo, o Reino Unido preferirá um não-acordo. E isso não é do interesse da UE. Nem que seja porque haveria danos económicos entre as duas partes, mas sobretudo o impacto seria desigual entre os diferentes estados-membros. Haveria sempre países mais prejudicados com um corte das relações comerciais com o Reino Unido do que outros, e isso seria mais um factor de destabilização da própria Europa. Aliás, a existência de uma negociação entre 27 países de um lado, e apenas um do outro, tende sempre a dificultar a posição negocial do bloco dos 27 países. São esses 27 países que se têm de entender ao mesmo tempo que negociam com o outro. E se esses 27 são afectados de forma diferente pelas relações comerciais com o Reino Unido, há grande potencial para negociações muito difíceis, sem que ideias alucinadas e irracionais afectem ainda mais o processo.



O Reino Unido vai sair da União Europeia. Vai sair do mercado comum e da união alfandegária. Isto é um dado adquirido.



Resta à UE negociar o melhor acordo comercial possível recíproco com o Reino Unido, definir o estatuto dos cidadãos europeus residentes nesse país, assim como o dos cidadãos britânicos na Europa, e manter a parceria em termos militares, de justiça e segurança comum.



Nada mais.



E no caso português, acho essencial que seja rapidamente criada uma Unidade de Missão no seio do Governo, de forma a que Portugal possa autonomamente definir quais são os interesses nas negociações do “Brexit”. O que temos a perder, e o que temos a ganhar neste novo contexto. Para não termos que seguir acéfalamente o que decidem outros.

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Liberdade


Já muito foi dito sobre a vida e legado de Mário Soares. Como ele é justamente considerado o pai da democracia portuguesa e o maior impulsionador da europeização de Portugal. A segunda metade do século XX português, e o Portugal do século XXI é incompreensível sem a figura de Mário Soares. E a Liberdade, essa utopia última de todos os verdadeiros democratas, cujos contornos concretos são alvo de debate feroz em todas as democracias, foi em grande medida o resultado da acção política de Mário Soares. E a sua maior força motriz. Mário Soares amava a Liberdade, lutou por ela, triunfou com ela, e deixou-nos o seu legado.



Em Liberdade, pela Liberdade, se levantam as vozes que o criticam. Quanto mais insultuosas, mais degeneradas, ou simplesmente loucas, são as acusações que se fazem à vida e actos de Mário Soares, mais acredito que ele sorrirá. Porque isso é a Liberdade que Mário Soares nos deixou. O respeito já não é imposto. Já não é obrigação. Em Liberdade podemos insultar tudo e todos. Podemos ser insultados. E o debate pode deixar de ser racional para passar a ser apenas emocional, fruto dos nossos preconceitos, da nossa ignorância. A Liberdade é a casa da ignorância, como também é a do conhecimento. Porque em Liberdade tudo é possível. Para o bem e para o mal. Isso era algo que Mario Soares compreendia como ninguém. É inútil guardar rancores, tudo pode mudar, porque temos a Liberdade de mudar. Mário Soares foi livre até ao fim. Porque a verdadeira Liberdade está dentro de nós, está nos nossos actos e nas nossas inacções. Está nos nossos pensamentos e decisões. E este é um dos legados de Mário Soares. Não interessa o que pensam os outros. Não interessa se estamos contra a maioria. A nossa Liberdade é termos a coragem de fazer o que queremos, sabendo que acarretaremos com as consequências, boas e más, que dai advirão. Foi isto que Mário Soares sempre fez.



Coragem


Mário Soares foi um homem de enorme coragem política e física. Como muitos já disseram, ele poderia ter tido uma vida desafogada no Portugal do Estado Novo. Bastava ter, como tantos fizeram, fechado os olhos ao sofrimento e desgraças do Salazarismo. À sua ausência de liberdade, ao reprimir das mais básicas necessidades de qualquer ser humano, seja através de privações de liberdade, de privações materiais, ou na impossibilidade de os portugueses serem tidos e achados no seu próprio destino colectivo.



Muitos fizeram isso na cumplicidade de se manterem na órbita do poder da ditadura, ou por simples necessidade de manterem os seus rendimentos. Lutar pela democracia nos tempos da “Outra Senhora” podia custar a vida, a liberdade, o exílio e a penúria. Destas agruras Mário Soares, felizmente para todos nós, só não conheceu a primeira. Ele sempre esteve na luta contra o regime, mesmo quando nada fazia prever que ele cairia. Outros só mudaram de campo quando os ventos da História já demonstravam que o regime não iria sobreviver. E outros ainda, só mudaram de campo quando o comboio da Liberdade estava a chegar a Portugal.



Essa parte da História já está enterrada, é inútil para o contexto político actual, mas convém sempre recordar aqueles cuja coragem foi sempre maior que a do resto de nós. Pois esses são mesmo os maiores de todos nós.



A coragem de Mário Soares não se diminuiu depois do 25 de Abril. No “Verão Quente” de 75, ele foi essencial para lutar contra todos aqueles que queriam um regime diferente da democracia pluralista, europeia e liberal, com economia de mercado, que temos hoje em dia. Contra os conselhos daqueles que achavam que o Partido Comunista era a força política dominante em Portugal, Mário Soares teve a coragem de agir com a sua intuição. Percebendo que não era certo que o PCP estivesse predestinado a governar o país, Mário Soares encetou uma verdadeira campanha política, social e cultural, que com muitos aliados, e muitos adversários, em todos os quadrantes da vida do país, em especial nas Forças Armadas, que resultaria no país livre, democrático, pluralista e de economia de mercado, inserido na União Europeia, que temos. E para isso, foi preciso uma enorme coragem.



A coragem de Mário Soares também se mediu em plena democracia. Contra a vontade de muitos do seu partido, do qual era fundador e figura maior, em vários ocasiões discordou do rumo do seu partido, tendo inclusive auto-suspendido a sua liderança por causa da decisão do PS apoiar a recandidatura de Eanes à Presidência da República. Mas a maior aposta, bem-sucedida diga-se, de Soares em democracia foi a sua candidatura à Presidência da República em 1986. Tendo por uma unha negra evitado a vitória de Freitas de Amaral à primeira volta, veria a ganhar a segunda volta, tornado-se assim o primeiro Presidente da República civil do pós-25 de Abril. Aqui também se revelou a coragem de Soares em combater politicamente uma pessoa que ele considerava como um irmão, Salgado Zenha.



Em 1999, Mário Soares foi o cabeça-de-lista do PS às eleições do Parlamento Europeu, apenas três anos após ter terminado os seus dez anos de Presidente da República. Foi a sua tentativa de alcançar a presidência do Parlamento Europeu, mas que infelizmente fracassou. Em 2006 teve o nadir da sua carreira política, tendo concorrido outra vez à Presidência da República numa tentativa fracassada de evitar que Cavaco Silva fosse eleito. Em ambos estes casos, foi necessário uma grande quantidade de coragem política, Mário Soares já tinha sido o titular dos mais altos cargos da nação. Já não precisava de provar nada a ninguém, poderia ter gozado alegremente o seu idílio de “senador” da República. Mas a sua coragem, o seu sentido de dever, não o permitiram. Ele sabia que eram dois objectivos muito difíceis de ganhar, mas o seu espírito não se deixou vergar pelas dificuldades. Mário Soares foi um “Leão” da política. E apenas as derrotas finais o poderiam travar. Isto é o verdadeiro significado da coragem. Lutar, mesmo quando sabemos que o mais provável é perder a luta. Mesmo que seja a última luta, mesmo que possa arrebentar a nossa reputação, sobretudo nas mentes de quem não o conhece na plenitude. Morrer politicamente a lutar por causas em que fracassamos é a antítese da política contemporânea. Mas ao contrário do que muitos dizem, Mário Soares não foi um grande político. Mário Soares foi um Grande Homem, que era um político.



Estar certo antes do tempo


Muito se têm falado sobre os dois grandes erros de Mário Soares no pós-Presidência da República. O ter-se candidatado às eleições europeias de 1999, para tentar ser Presidente do Parlamento Europeu, e a candidatura à Presidência da República em 2006, contra Cavaco Silva. Terminam-se muitos dos comentários políticos à vida de Mário Soares com estes dois eventos, como se eles reduzissem o brilho da sua longa acção política. Como se fossem os actos de uma personalidade já não completamente no uso completo das suas faculdades mentais. A meu ver, essas visões não poderiam estar mais erradas. Comecemos pelo Parlamento Europeu.



É sempre um exercício ingrato fazer história contra-factual, mas é minha convicção que caso Mário Soares tivesse sido eleito Presidente do Parlamento Europeu, ele teria sido um factor muito importante para vitalizar o papel desse órgão, face a uma eurocracia que alegremente continua a levar a Europa para a sua própria desintegração. A Presidentes da Comissão Europeia que foram autênticas nódoas, basta lembrar-nos de Durão Barroso e Juncker, ou de Presidentes do Conselho Europeu que parecem ser escolhidos de propósito para serem não-entidades como Rompuy ou Tusk, poderíamos ter na Presidência do Parlamento Europeu um verdadeiro estadista europeísta, no bom sentido da palavra, algo que em parte só Martin Schulz conseguiu ser.



Mário Soares foi derrotado no seu objectivo de ser actor na UE, mas os seus instintos estavam certos. E no mínimo, poderíamos ter evitado a verdadeira tragédia nacional que foi a eleição de Durão Barroso para a Comissão Europeia.



Nas presidenciais em 2006, Mário Soares deparou-se com uma tarefa quase impossível. Ele temia que a eleição de Cavaco Silva como Presidente da República iria ter efeitos devastadores para o país, mas ninguém parecia estar em condições de o travar, como aliás se viu nas eleições de 2011. A única dúvida razoável era se Mário Soares deveria ter apoiado Manuel Alegre como candidato do PS, mas no contexto político da altura era muito difícil que isso acontecesse. E Mário Soares não virou a cara à luta. O resto já sabemos. A presidência de Cavaco Silva é uma história que ainda está para se contar, mas é inegável o papel activo que ele teve no derrube do último governo socialista de José Sócrates, forçando assim o resgate europeu às nossas finanças públicas, assim como foi um parceiro activo com Passos Coelho nos “Anos de Chumbo”, na célebre analogia de Paz Ferreira, que tantas desgraças causaram no Portugal recente. Cavaco Silva foi o pior Presidente da República Portuguesa do pós-25 de Abril, e Mário Soares sabia que o iria ser, como aliás muitos também sabiam. Mas poucos tiveram a coragem de lutar contra ele em 2006. Coragem nunca faltou a Mário Soares.



Mário Soares é o homem a quem os portugueses mais devem por viverem em liberdade e democracia, num país desenvolvido e europeu. Muitos não o reconhecerão, e isso é o seu direito democrático. Mas para aqueles que o reconhecem, como eu, apenas posso agradecer, no fundo do meu coração, por tudo aquilo que fez pelo nosso país e por todos nós.



As minhas sentidas condolências à sua família e amigos.



Que descanse em Paz.

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07
Jan

Obrigado

por David Crisóstomo

 

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Conclusão da intervenção de Mário Soares no debate final global da Constituição da República Portuguesa na Assembleia Constituinte, a 2 de Abril de 1976.

 

 

 

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